Poucos meses após o retorno forçado a Itabira, no início de 1920, Drummond muda-se para Belo Horizonte, com toda a família. A mudança brusca - encabeçada pelo pai, que vende grande parte das terras em Itabira e torna-se, praticamente, um incorporador em Belo Horizonte -, traz a Drummond uma liberdade ainda não experimentada e a chance de escrever com regularidade.
![]() Reprodução Além de um excepcional poeta, Drummond foi um grande cronista, como revela esta coletânea com 70 narrativas, da Editora Record |
A partir daí, o poeta passa a integrar um grupo de jovens escritores e intelectuais que viria a se tornar conhecido como “modernistas mineiros”. Enquanto em São Paulo, em fevereiro de 1922, Mário e Oswald de Andrade preparavam a Semana de Arte Moderna, o grupo de Drummond se reunia para discutir e defender pressupostos filosóficos e estéticos semelhantes, em Belo Horizonte.
Aí se inicia a primeira fase modernista de Drummond, na qual os traços mais característicos seriam o humor, o tom coloquial de confidência, de conversa, beirando ao prosaico e a um estilo levemente brejeiro. Tudo combinado a uma personalidade dramática, deslocada do sistema, gauche, como ele se autodefine em "Poema de sete faces", na abertura de seu primeiro livro, "Alguma Poesia" (1930):
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.
Gauche, palavra francesa cuja tradução literal em português é “esquerda”, remete a significados figurados, como “desajustado”, “acanhado”, “inepto”, “à margem” do sistema, da sociedade, da realidade vigente. Esse paradoxo entre o eu poético, que se coloca e se reconhece à margem do mundo, e o eu vivente, necessariamente envolvido nas coisas do mundo e da sobrevivência, é presença constante na poesia de Drummond. O próprio fazer poético drummondiano se baseia no impasse vivido pelo gauche, que não consegue se ver inserido no mundo e, somente por meio da poesia, encontra uma forma de comunicação com essa realidade exterior.
Em julho de 1928 é publicado na primeira página da "Revista da Antropofagia", por Oswald de Andrade, o poema “No meio do caminho”, um dos mais conhecidos e polêmicos de Drummond:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
O poema, publicado posteriormente no livro "Alguma Poesia" (1930), causou um verdadeiro escândalo na imprensa da época, provocando ataques ferrenhos ao autor por críticos que se negavam sequer a considerar poesia aquele texto ousadamente estruturado na repetição e numa construção lingüística simples, coloquial, que afirma a fala popular “tinha uma pedra” em detrimento da forma culta “havia uma pedra”.
Depois dos vários ataques da crítica, o próprio Drummond afirma “sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais". Apesar de Drummond nunca ter esclarecido quais seriam essas “duas categorias mentais”, fica claro o impacto do poema diante da opinião pública da época, que sentiu-se obrigada a parar diante daquela pedra no meio do caminho e expressar seu posicionamento com relação a ela - ou entusiasticamente favorável, como se mantiveram os modernistas e simpatizantes, ou radicalmente contra, como a maioria da crítica literária conservadora da época. Aliás, até hoje, a pedra drummondiana permanece impassível e desafiadora, na sua mudez de minério, a fomentar questões, estudos e paixões nos caminhos dos admiradores e estudiosos da obra do poeta.