Apesar de ter concluído a faculdade de Direito, Clarice nunca exerceu a profissão. A escrita sempre foi sua vocação maior e seu ofício: além de escritora, ela trabalhou como jornalista, por longos anos, e como tradutora, por períodos curtos, mas intensos – em apenas um ano, 1939, ela verte para o português obras de Ibsen, Garcia Lorca, Jack London, Julio Verne, Bella Chagall, Henry Fielding, Agatha Christie, Pascal Lainé e Edgar Allan Poe.
Já em 1940, ainda na faculdade, Clarice ingressa no Departamento de Imprensa e Propaganda, inicialmente como tradutora, mas acaba assumindo a função de redatora, tendo sua primeira reportagem publicada em 1941, no Diário do Povo, em Campinas. No ano seguinte, Clarice passa a trabalhar como redatora no jornal “A Noite”, obtendo seu registro profissional como jornalista. Além de assinar suas próprias matérias, nas décadas de 50 e 60 ela passa a escrever sob pseudônimos diversos, prática bastante comum na época, como Helen Palmer (no “Correio da Manhã”) e Teresa Quadros (no “Comício”). Torna-se, também, ghost-writer da atriz Ilka Soares, no “Diário da Noite”.
Mas é no Jornal do Brasil que Clarice liberta-se dos temas considerados “femininos”, para a imprensa da época – como economia doméstica, culinária e cuidados com os filhos – e ganha papel de destaque como colaboradora, assinando crônicas veiculadas aos sábados, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, mesma época em que outros escritores de renome, como Carlos Drummond de Andrade, colaboravam para o jornal. Também, a partir de 1968, ela passa a fazer bastante sucesso como entrevistadora, nas revistas Manchete e Fatos & Fotos. Clarice manteve-se escrevendo e publicando crônicas e entrevistas até poucos meses antes de sua morte, causada pelo câncer, em setembro de 1977.
A literatura infantil entrou na vida de Clarice Lispector por meio de seu filho, Paulo, que vendo a mãe absorta, escrevendo um dos seus romances, pede a ela que escrevesse uma historinha para ele. Ocupada, ela responde que lhe escreveria uma depois, mas diante da insistência do menino, Clarice troca a folha da máquina de escrever e dá vida a “O Mistério do Coelho Pensante”, que seria publicado em 1967. A partir de então, Clarice publica mais três títulos para crianças – “A Mulher que Matou os Peixes” (1969), “A Vida Íntima de Laura” (1974) e “Quase de Verdade” (1978), todos trazendo os animais – coelhos, galinhas, peixes e cachorros - como protagonistas e em situações de pleno convívio com os seres humanos. Clarice tinha um grande amor e um imenso respeito pelos animais, enchia-se de alegria ao ter contato com eles, o que transparece em cada linha de suas histórias infantis. A originalidade dos títulos, curiosos e instigantes, e os temas e focos narrativos inusitados – a vida íntima de uma galinha que tem medo dos humanos; o cachorro-narrador que conta histórias para a escritora – conferem à pequena obra infantil de Clarice uma grandeza de estilo rara. Sua sensibilidade e carinho diante de todas as formas de vida, suas narrativas simples e engraçadas, combinadas a uma linguagem coloquial e próxima do leitor - “Se você quiser adivinhar o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo. É capaz de você mesmo descobrir a solução, porque menino e menina entendem mais de coelho do que pai e mãe. Quando você descobrir me conta.” -, resultaram em histórias deliciosas, cativantes e divertidas, que continuam conquistando tanto crianças quanto adultos. Além desses quatro títulos infantis, publicados em vida, Clarice ainda reescreveu doze lendas indígenas para crianças em "Como nasceram as estrelas", que foi publicado em 1987. |