Clarice Lispector: transcendência da linguagem e poesia

Autor: 
Andrea de Barros

“A Paixão segundo G.H.” é um dos romances mais complexos de Clarice Lispector. Toda a ação ocorre dentro do apartamento de uma mulher, identificada apenas por suas iniciais, G.H., que, ao entrar no quarto de sua ex-empregada, depara-se com uma barata no armário, esmagando-a na porta. A partir daí, G.H. (junto do leitor) mergulha num turbilhão de sentimentos, que passam pela repulsa inicial e evoluem para uma experiência epifânica, na qual a libertação e a perda se confundem: “Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? (…) É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me mesmo seja de novo a mentira que vivo".

Os livros que Clarice Lispector escreveu trazem um olhar questionador sobre a interioridade humana
Acervo de Divulgação / Editora Rocco

G.H. se depara, diante da massa da barata esmagada, com a finitude de sua própria existência, com a fragilidade de sua identidade, experimentando a desconstrução de tudo o que a caracterizava como indivíduo para dar espaço à possibilidade do surgimento de uma nova vida, mesmo que essa seja toda feita de dúvidas.

Nesse romance ímpar, Clarice convida o leitor a experienciar essa transcendência física e psíquica vivida pela personagem, por meio de um exercício de linguagem que questiona a própria capacidade de expressão do texto diante de idéias, sentimentos e sensações inclassificáveis por meio de palavras. “A Paixão segundo G.H.” é uma leitura-vivência, um romance para ser lido com o espírito de despojamento e a coragem de se abrir para o desconhecido.

Clarice Lispector escreveu romances, contos, crônicas ... E poesia? Não, ao menos não há registro, em sua bibliografia, de qualquer publicação de poesia. Entretanto, toda a prosa de Clarice transborda poesia, já que seu trabalho com a linguagem é ricamente elaborado, marcado pelo intenso uso de metáforas e pela busca constante da recriação semântica, como se os significados que a autora buscava expressar não coubessem em termos e palavras usuais.

Mas, entre todos os seus livros, “Água Viva” (1973) é, sem dúvida, o que mais explicitamente apresenta as características da prosa poética clariciana. Trata-se de um monólogo proferido por uma pintora - Clarice sempre quis ser pintora e chegou, nos últimos anos de vida, a dedicar-se a ela -, que, numa madrugada, deixa-se levar por um fluxo contínuo e ininterrupto de reflexões sobre o fazer artístico, o espaço, o tempo, o medo, a morte, enfim, uma infinidade de questões, pensamentos e emoções que se transformam num grande poema em prosa, ou numa “sinfonia”, nas palavras de Alberto Dines em carta a Clarice: “É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia. É o mesmo uso do tema principal desdobrando-se, escorrendo até se transformar em novos temas que, por sua vez, vão variando, etc. etc.”