Qualquer tentativa de definir Clarice Lispector é ingrata. Tanto para quem escreve sobre ela e sua obra, como para ela mesma, que parece não ter alcançado a grandeza de si própria durante a vida: “Sou tão misteriosa que não me entendo”.
![]() Acervo de Divulgação / Editora Rocco Além de escritora, Clarice Lispector trabalhou como jornalista e como tradutora |
O coração de Clarice deve ter batido “de alegria levíssima” infinitas vezes, já que toda a sua obra traduz em palavras o indizível da vida. Em “Perto do Coração Selvagem” (1944), por exemplo, a personagem principal, Joana, vive em busca de respostas para a sua inquietude constante, numa narrativa que revela, muito mais que fatos e acontecimentos externos, a interioridade, a riqueza psicológica da vida observada em profundidade. Esse primeiro romance de Clarice, que, ao contrário do que ocorre com a maioria dos escritores, não tem qualquer titubeio, nada que possa qualificá-lo como expressão de um talento que ainda viria a ser lapidado com o tempo e a prática, já nasce grande, surpreendendo a crítica com sua força de estilo, personalidade e originalidade.
Em “O Lustre” (1946), seu próximo romance, fecha-se ainda mais o foco clariciano na alma humana e quase tudo o que se vê são paisagens interiores, sentimentos claros e obscuros que se alternam no íntimo de Virgína: “Debruçava-se um instante à janela, o rosto oferecido à noite com ânsia e delícia, os olhos entrecerrados: o mundo noturno, frio, perfumado e tranqüilo era feito de suas sensações fracas e desorganizadas".
Pode-se dizer que todos os livros que Clarice viria a publicar ao longo da vida compartilharam desse olhar questionador sobre a interioridade humana, mas acredito que cabe destacar aqui, com o perdão da arbitrariedade que toda escolha envolve, dois títulos que marcaram a trajetória literária clariciana por algumas características muito peculiares – “A Paixão segundo G.H.” (1964) e “Água Viva” (1973). Saiba mais sobre eles na próxima página.