A abertura política e a volta ao lirismo

Em 1978, os primeiros sinais de abertura política no país começaram a surgir. Com o fim da censura e a volta dos exilados políticos, Chico Buarque lançou um disco com suas músicas que haviam sido censuradas, como por exemplo, “Tanto Mar”, “Apesar de Você” e “Cálice”. E também com inéditas como “Feijoada Completa”, que faz uma homenagem bem brasileira àqueles que voltavam do exílio:

Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão


Carioca
LP "Carioca" lançado em 2006 mostra o lado lírico de Chico Buarque

No início dos anos 80, continuou compondo e atuando politicamente no período de transição democrática. Em 1983, compôs “Vai Passar”, música considerada símbolo do movimento de abertura. No ano seguinte participou da campanha “Diretas Já”. Mas, a partir de 1987, no entanto, a politização deixou de ser tema central de sua música. O compositor parecia ter retomado o caminho que o inspirou a seguir a carreira de músico no início dos anos 60. Época em que as harmonias sofisticadas da bossa nova foram interrompidas pela truculência da ditadura militar. O LP “Francisco”, de 1987, marca a retomada do lirismo, com canções como “Todo Sentimento”:

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu


Nos discos seguintes, como “Chico Buarque, de 1989, “Paratodos”, de 1994, “As Cidades”, de 1998, e “Carioca”, de 2006, a temática intimista se repete. Como continua presente também a qualidade poética das letras, independentemente do tema das canções. E permanece evidente, acima de tudo, a capacidade de Chico Buarque retratar a si mesmo, o papel da sua arte e o mundo em que vive com uma rara competência, como se vê na música o “Tempo e o Artista”, de 1994:

Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela

Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso

Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta

 

Muito além das canções

Chico Buarque é considerado um mestre das palavras. Com uma qualidade estética poucas vezes alcançada na música, flerta com a poesia, a dramaturgia, a linguagem cinematográfica e a literatura. Essa habilidade sempre foi bem explorada por ele, o que resultou em uma série de obras fora da área musical. Veja aqui os principais trabalhos do artista nessas outras artes:

No teatro
Além de criar as músicas para “Morte e Vida Severina”, com base no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, e do musical infantil “Os Saltimbancos”, escreveu as peças:
- “Roda Viva” (1968), com direção de José Celso Martinez Corrêa;
- “Calabar: O Elogio da Traição” (1973), em parceria com o cineasta Ruy Guerra e direção de Fernando Peixoto;
- “Gota d'Água” (1975), em parceria com Paulo Pontes e direção de Gianni Ratto; e
- “Ópera do Malandro” (1978), baseada na “Ópera dos Mendigos” (1728), de John Gay, e na “Ópera de Três Vinténs” (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

No cinema
- “Quando o Carnaval Chegar” (1972): roteiro, em parceria com Carlos Diegues e Hugo Carvana, e música, em parceria com Roberto Menescal, além da participação como ator;
- “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981): música em parceria com Luiz Bacalos e Sérgio Bardotti;
- “Para Viver um Grande Amor” (1983): adaptação e roteiro em parceria com Miguel Faria Junior e músicas com Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Djavan; e
- “Ópera do Malandro” (1985): roteiro, em parceria com Orlando Senna e Ruy Guerra, e música, em parceria com Chiquinho de Moraes.

Na literatura
- “Fazenda Modelo” (1974)
- “Chapeuzinho Amarelo” (1979)
- “A bordo do Rui Barbosa” (1981)
- “Estorvo” (1991)
- “Benjamim” (1995)
- “Budapeste” (2004)