O nascimento do mito Chico Buarque: a censura e a metáfora

Chico Buarque voltou ao Brasil em 1970 e o país que encontrou não era mais o mesmo. Com o AI-5, o espaço para a sutileza definitivamente tinha acabado. A época dos “Anos Dourados” havia ficado lá atrás e o país idealizado por sua geração mostrou-se uma promessa que não se concretizaria. Emílio Garrastazu Médici, considerado o mais autoritário general do regime, estava no poder. Um vasto sistema de censura e de tortura havia se instalado para impedir qualquer manifestação contraria a ordem dominante. Vasto, mas não muito perspicaz.

Construção
Capa do álbum "Construção" (1971), considerado um dos dez melhores da história da música popular no Brasil


Chico Buarque, que também já não era mais o mesmo, indignado com o Brasil que encontrou, escreveu “Apesar de Você”. Na canção, criticava o presidente Médici e a ditadura, usando com muita habilidade recursos de linguagem que possibilitavam duplos sentidos na letra. Inacreditavelmente a música passou ilesa pela censura, disfarçada como a narração de uma briga de namorados. Percebido o vacilo, no entanto, o governo mandou invadir a gravadora e destruiu as cópias dos discos. Um pouco tarde porém, pois a canção já havia se tornado símbolo da luta contra o governo militar e o compositor, um novo mito.

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar


Depois disso, qualquer música que levasse o nome de Chico Buarque passou a ser censurada. Assim as canções “Tanto Mar”, “Atrás da Porta” e “Cálice” foram proibidas. Para driblar a censura, em 1974 nasceu Julinho da Adelaide, personagem criado por Chico Buarque para ser o compositor fictício de suas músicas. Conseguiu lançar três delas usando este artifício, “Acorda, Amor”, “Jorge Maravilha” e “Milagre Brasileiro”, até ser desmascarado no ano seguinte. Morria assim prematuramente o “novo” compositor. Continuava cada vez mais viva, no entanto, a importância de Chico Buarque como símbolo de resistência. Imagem, no entanto, que parece não tê-lo agradado. Decidido a não alimentar o mito, afastou-se das apresentações musicais ao vivo por longos anos, embora tenha continuado a compor.

Em 1976, várias músicas do disco “Meus Caros Amigos” tornaram-se clássicos da produção musical de caráter social e de protesto contra a ditadura. “Olhos nos Olhos”, “Mulheres de Atenas”, “Basta um Dia” e “O que Será” trazem um conteúdo crítico cada vez mais mordaz:

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo