A fase lírica de Chico Buarque: da bossa nova à banda que passou

Francisco Buarque de Hollanda, o Chico Buarque, nasceu em 1944 no Rio de Janeiro, em uma família onde letra e música conviviam em harmonia. Filho do historiador e jornalista Sergio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim, teve contato desde a infância com a arte. Sua casa era freqüentada por intelectuais e músicos como Baden Powell, Oscar Castro Neves, Paulo Vanzolini, Vinícius de Moraes e João Gilberto, entre outros, o que ajudou a despertar nele um interesse precoce pela cultura. No final dos anos 50, em São Paulo, gostava tanto de literatura quanto de música. Desfilava pela escola com clássicos da literatura francesa, alemã, russa e brasileira, e escutava Noel Rosa, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Elvis Presley e The Platters.

Nesse período pós Segunda Guerra Mundial, o mundo vivia uma era de paz e prosperidade. As oportunidades econômicas e os ideais de liberdade, então em alta, geraram uma onda de euforia. Países do chamado Terceiro Mundo acreditaram que era hora de se tornarem desenvolvidos. No Brasil, em 1956, depois de anos de governo autoritário e populista de Getúlio Vargas, chegou ao poder Juscelino Kubitschek. Um presidente que, afinado com esta tendência mundial, trouxe uma nova política desenvolvimentista para o país. Era uma fase em que o crescimento econômico, o desenvolvimento social e a liberdade política fizeram com que surgisse uma cultura jovem, preocupada em expressar essa nova condição de modernidade. Foi um período de grande criatividade e inovação no campo cultural.

E foi a bossa nova, movimento de modernização da música brasileira, que marcou profundamente Chico Buarque naquela época. Após ouvir João Gilberto, no LP “Chega de Saudade”, em 1959, despertou verdadeiramente para a música. A ponto de ouvir o disco dezenas de vezes por dia, quase levando sua família e seus vizinhos à loucura. Imediatamente quis aprender a tocar violão e passou a compor. Com o final do governo de Juscelino Kubitschek, em 1962, no entanto, iniciou-se um período instável na política brasileira. Com o agravamento da situação econômica, abriu-se espaço para que os militares, em 1964, tomassem o poder em nome da manutenção da ordem e do desenvolvimento econômico. O que ninguém sabia, pelo menos em princípio, é que isso representaria também o fim da liberdade política e de expressão. Era o fim dos “Anos Dourados” que deixaram marcas profundas em toda uma geração de jovens que cresceu sonhando com o Brasil do futuro.

Chico Buarque, então aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, fazia parte da agitada vida estudantil da época, que se ocupava tanto da cultura quanto do ativismo político. Foi quando sentiu os primeiros sinais da ditadura, embora a repressão pesada ainda não tivesse começado. No teatro, por exemplo, havia espaço para manifestações abertas contra o governo, encabeçadas pelo Teatro Oficina e o Grupo Opinião. No campo musical, os primeiros sinais de resistência surgiram com alguns músicos “dissidentes” da bossa nova, que passaram a produzir uma música mais engajada. Com o endurecimento do regime, logo nasceriam também as chamadas “canções de protesto”.

Ainda em 1964, Chico Buarque lançou a música “Tem Mais Samba”, com forte influência da bossa nova, composta para o musical “Balanço de Orfeu”. Mas o início oficial da sua carreira aconteceu em 1965, quando lançou seu primeiro compacto com “Pedro Pedreiro” e “Sonho de Carnaval”. Naquele ano criou também as músicas do espetáculo “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

Mas, foi em 1966 que Chico Buarque realmente se tornou conhecido. Na época, os festivais de música viraram um fenômeno de audiência entre os jovens e uma plataforma de lançamento para novos artistas e tendências. Era o início da televisão como um dos principais veículos da nascente indústria cultural no país. Ao participar do II Festival de Música Brasileira, promovido pela TV Record, chegou à final com a “A Banda”, interpretada por Nara Leão. Apesar de ser o vencedor, fez questão de dividir o primeiro lugar com “Disparada”, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, defendida por Jair Rodrigues, que fazia crítica direta à ditadura. Porém, “A Banda”, mesmo com uma letra leve e nostálgica, que abordava liricamente a questão das mudanças ocorridas no país, agradou o público:

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor


Com o endurecimento do regime militar, a partir de 1967, a radicalização que atingia várias esferas da vida do país, chegou também à cultura. Cada vez mais os artistas eram obrigados a tomar uma posição. Ou se estava do lado dos que acreditavam em uma solução negociada ou dos que defendiam uma postura radical. O clima tornou-se policialesco. O então “bom-moço” Chico Buarque, que já era chamado de alienado pelos tropicalistas, por falar em suas canções apenas sobre o belo, começou a ser hostilizado também nos festivais. Em 1968, foi declarado, sob protestos e vaias, vencedor do III Festival Internacional da canção da TV Globo, com “Sabiá”, parceria com Tom Jobim. A audiência revoltada não se conformou com a derrota de “Pra não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré, que convocava as pessoas à ação.

No final daquele mesmo ano, no entanto, “Sabiá”, antes vista como leve e despretensiosa demais para aqueles anos, passou a ser considerada premonitória. A decretação do Ato Institucional Nº 5, o AI-5, criou inúmeros instrumentos de controle e repressão. Quem ousava se opor diretamente ao regime, era perseguido, preso, torturado ou exilado. Assim Chico Buarque foi levado para o Ministério do Exército para dar declarações sobre a sua participação na “Passeata dos Cem Mil” (ato de protesto contra a ditadura realizado no Rio de Janeiro por iniciativa do movimento estudantil) e sobre o “subversivo” espetáculo “Roda Viva”. Pressionado pela polícia, foi para Itália, em exílio voluntário, onde permaneceu por dois anos, sempre desejando voltar. Aí “Sabiá” pareceu ganhar outra conotação:

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia