![]() Capa do álbum "Araçá Azul" (1973), o mais experimental de Caetano Veloso |
A canção, ao contrário daquelas que pertenciam a uma MPB que valorizava o passado ou que se engajava de forma épica, falava do presente e trazia um protagonista descompromissado e livre (Caminhando contra o vento / Sem lenço, sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou). Musicalmente, ela trazia uma mistura de marchinha e rock (uma espécie de atualização da receita da bossa nova que havia misturado samba e jazz). Seus versos fizeram uma colagem de cenas sobrepostas (O sol se reparte em crimes / Espaçonaves, guerrilhas / Em Cardinales bonitas / Eu vou / Em caras de presidentes / Em grandes beijos de amor / Em dentes, pernas, bandeiras / Bombas e Brigite Bardot), quase que como numa narrativa cinematográfica. “Alegria, alegria” já sintetizava os principais elementos do movimento tropicalista – a mistura da cultura pop, da modernidade musical, de elementos e do caráter brasileiro; a “antropofagia” estava ali colocada em prática.
Se “Alegria, alegria” apresentou o tropicalismo proposto por Caetano Veloso, foi na verdade a canção “Tropicália” que mostrou o sincretismo sonoro, poético e conceitual do movimento. Lançada no álbum "Caetano Veloso" de 1968, seus versos traçam um retrato cantado do Brasil:
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país
Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça
Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada de uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão
Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis
Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhora e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim
Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Domingo é o Fino da Bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém o monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem
Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da
Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da
Nesse retrato, todas as contradições da realidade brasileira estão expostas de forma crítica: a convivência entre o arcaico e o moderno, o rural e o urbano, a alta cultura e a cultura popular, o folclore e a cultura de massa. A ironia é usada para contestar uma ideologia nacionalista e populista que dominava o pensamento à direita e à esquerda no espectro político e para mostrar a hipocrisia política que fazia um discurso de defesa da liberdade, mas que praticava o autoritarismo e o patrulhamento ideológico. “Tropicália” constituiu-se num manifesto musical do movimento.
A herança tropicalista continuou a acompanhar a obra de Caetano para além do “fim” do tropicalismo e é possível registrá-la em diversas canções compostas por ele nas décadas seguintes. Essa pode ser uma das razões da sua inquietude artística e da sua capacidade de continuar a buscar uma síntese da cultura brasileira com a internacional.