A trajetória tropicalista de um polêmico Caetano Veloso

Autor: 
Sílvio Anaz

Influenciado por João Gilberto, o também baiano Caetano Veloso, nascido em 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, começou sua trajetória musical na praia da bossa nova. Nos tempos em que freqüentou a Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, no começo dos anos 60, ele iniciou sua caminhada em direção a uma produção artística de vanguarda.

Caetano, Gil e Gal
©1967 Hélio Oiticica
Caetano com Gilberto Gil e Gal Costa em 1967

A época em que chegou à faculdade foi a mesma em que conheceu Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa. A década de 60 tinha começado a mostrar seus ares de tempos de emancipação e rebeldia política e cultural da juventude. O pensamento libertário de uma nova esquerda se consolidava nos Estados Unidos e influenciava diretamente a produção artística e os movimentos culturais jovens. A herança da geração literária beatnik se transformou nos fundamentos do movimento hippie, surgiram novas visões libertárias do mundo, da psicanálise à política, e as produções artísticas eram influenciadas também pela Pop Arte, pelo existencialismo e por uma contracultura que se opunha a valores tradicionais sociais e econômicos. No Brasil, o governo João Goulart prometia uma era de reformas que privilegiaria as classes menos favorecidas e havia um forte engajamento artístico em torno dessas promessas, assim como uma polarização da sociedade.

É nesse ambiente de efervescência social e cultural que Caetano Veloso começou a repensar a música popular brasileira. À medida que os anos 60 avançaram, a revolução da juventude avançou nos Estados Unidos e na Europa, mas no Brasil o que avançou foi uma ditadura militar que assumiu o poder em 1964 e que usou de censura e repressão para conter as reivindicações consideradas progressistas.

No campo musical, o Brasil assistiu a uma disputa entre uma música popular derivada da bossa nova, mas mais engajada e que buscava a preservação de uma tradição brasileira – e que viria a ser chamada de moderna música popular brasileira (MPB) –, e uma música jovem, descompromissada e alinhada com o pop internacional, a Jovem Guarda. Essa polarização entre tradição e modernidade era uma constante na cultura brasileira. Os modernistas cerca de quatro décadas antes já haviam apontado a questão e proposto uma solução, principalmente por meio do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. A antropofagia cultural previa que absorvêssemos o que havia de bom na modernidade internacional e a devolvêssemos por meio de produções artísticas com elementos típicos brasileiros.

Em 1966, Caetano recupera a idéia dos modernistas ao afirmar que era necessário uma retomada da linha evolutiva da música popular brasileira, a partir do exemplo dado pela bossa nova. Isso significava que a modernidade das guitarras elétricas e da canção pop internacional poderia ser muito bem aproveitada para a criação de uma canção popular com elementos tipicamente brasileiros. No ano seguinte, ele mostraria para o Brasil o resultado dessa idéia: a canção “Alegria, alegria” foi apresentada por ele acompanhado do conjunto de rock argentino Beat Boys, no 3.º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. Em 1968 é lançado o disco “Caetano Veloso” um verdadeiro estandarte musical do movimento artístico denominado de Tropicália ou tropicalismo. Canções como “Tropicália”, “Superbacana” e “Soy loco por ti América”, além de “Alegria, alegria”, sintetizaram a ruptura proposta pelo movimento que eliminou as fronteiras entre “alta cultura” e cultura de massas e juntou poesia concreta, literatura contemporânea, rock, bossa nova, samba e baião, entre outros gêneros nacionais e internacionais, num sincretismo inovador. No final de 68, Caetano e Gil são presos e ficam detidos até fevereiro de 69. Em julho partem para o exílio em Londres (Inglaterra).

Meses antes de ser preso, Caetano faz uma apresentação no Festival Internacional da Canção, da TV Globo, no Teatro Universidade Católica (TUCA) em São Paulo, que ficou célebre em função de sua reação à reação da platéia. Ao cantar “É Proibido Proibir”, inspirada na rebelião estudantil que eclodiu em 68, principalmente em Paris (França), ele foi intensamente vaiado pelo público. Caetano responde com um discurso no qual indaga se aquela era a juventude que queria tomar o poder: “a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”.

Doces Bárbaros
©1976 Lita Cerqueira
Apresentação dos "Doces Bárbaros" em 1976

 

Os anos 70, incluindo o período no exílio em Londres, marcou uma produção artística de Caetano identificada com a contracultura e distante de qualquer engajamento político-partidário. Em 1973, sai o disco “Araçá Azul”, uma obra experimental que reúne todos os fundamentos do tropicalismo, da antropofagia à poesia concreta, do rock ao samba. Em 76, junto com Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, forma o conjunto “Os Doces Bárbaros”, que sai em turnê pelo Brasil. No ano seguinte, outro álbum característico da fase hippie de Caetano e vetor de polêmicas é lançado: “Bicho”. A canção “Odara”, que é um dos destaques do disco, foi considerada um hino da alienação por ativistas da esquerda brasileira.

Nos anos 80, enquanto ganha forma um novo pop-rock brasileiro nas canções de Os Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, entre outros, Caetano lança discos que atingem as melhores vendagens em sua carreira até então, como “Outras Palavras” (1981) e “Totalmente Demais” (1985). É uma fase em que o rock se faz mais presente nas sonoridades de suas canções e também quando acontecem várias polêmicas em torno de sua obra e atitudes. Em 1983, o bate-boca é com o jornalista Paulo Francis que ironiza a postura subserviente de Caetano ao entrevistar Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, para o programa televisivo “Conexão Internacional”. No ano seguinte, a polêmica é com um dos intelectuais que influenciaram e defenderam o movimento tropicalista, o crítico e poeta concretista Décio Pignatari.

Nas décadas seguintes, suas atitudes e opiniões principalmente sobre política e cultura lhe renderam diversas críticas e novas polêmicas. Uma delas é a de ser integrante da “máfia do Dendê”, um lobby de artistas baianos com o objetivo de influenciar a imprensa no intuito de manter uma hegemonia na mídia da música produzida na Bahia.

A produção artística de Caetano Veloso nos anos 90 e no começo dos anos 2000 o consolidou definitivamente como um dos mais importantes compositores da música popular no Brasil. Suas reinvenções estéticas constantes confirmam a alma tropicalista de sua obra.