No início dos anos 60 músicos americanos como Ella Fitzgerald e Herbbie Mann visitaram o Rio de Janeiro e tiveram contato com a bossa nova, o que os levou a divulgá-la nos Estados Unidos. Mas foi somente em 1962 que dois clássicos do gênero, “Desafinado” e “Samba de uma Nota Só”, foram gravados em uma versão instrumental pelos músicos americanos Stan Getz e Charlie Byrd, vendendo mais de um milhão de cópias.
![]() Álbum "Getz/Gilberto" (1963): responsável pelo sucesso e reconhecimento mundial da bossa nova |
Nesse mesmo ano, aconteceu o primeiro show de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York, com a participação de João Gilberto, Carlos Lyra, Tom Jobim, Roberto Menescal, Sérgio Mendes, Luiz Bonfá e Agostinho dos Santos. Apesar de ter sido considerado um fracasso pelos próprios músicos na época, devido à total falta de organização, o show foi fundamental para fazer o gênero se popularizar nos Estados Unidos. Foi lá que, em 1963, Tom Jobim gravou o disco “The Composer of Desafinado Plays”, que trouxe a versão instrumental de grandes clássicos e ganhou o Grammy de melhor álbum em 1964. Neste mesmo ano, João Gilberto e o saxofonista Stan Getz gravaram ainda o disco “Getz/Gilberto”, que vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos e ganhou quatro Grammys, inclusive de melhor álbum e de melhor música com “Garota de Ipanema”. A canção também alcançou o quinto lugar da Billboard, a parada de sucessos norte-americana.
O sucesso da bossa nova nos Estados Unidos e a ida freqüente de músicos brasileiros para o país naquele período fez com que as críticas em relação ao gênero se intensificassem. O historiador José Ramos Tinhorão, por exemplo, ganhou munição na época para reforçar sua crença de que a bossa nova não trazia nenhuma inovação, pois, não passava de cópia piorada da música americana. Para Tinhorão, “o que desde 1958 se viria a denominar de bossa nova nada mais representa do que a montagem, no país, de uma versão ‘nacional’ da música popular americana, por meio do uso da requintada polirritmia do bebop branco de meados da década de 1940, aliada à harmônica fala mansa do cool jazz do pós-Segunda Guerra Mundial”.
Já o jornalista Artur da Távola, tem um ponto de vista diferente: “em primeiro lugar, o que a bossa nova incorpora do jazz, o jazz incorporou de harmonias impressionistas, principalmente o jazz branco, intelectual - o cool jazz. Ao mesmo tempo, a influência do jazz como um todo é a mesma influência que a música popular brasileira tem, ou seja, a influência negra. Portanto, ao incorporar o jazz, ela está incorporando a mesma matriz da influência do samba que é a influência negra. Não há propriamente a contaminação na bossa nova do que existe de fora como fator diluidor. Ao contrário, é mais um encontro de afinidades silenciosas, intuitivas ou empáticas do que a interferência que à época era chamada imperialismo norte-americano a invadir a nossa música. Tanto no jazz negro existe afinidade quanto o jazz branco é também influenciado por harmonias impressionistas por construções de caráter europeu”.
O professor de música Nelson Cayhado afirma que a influência do jazz não foi exclusividade da bossa nova, já que a música brasileira já tinha tido contato com o gênero desde o início do século 20. Quanto à inovação, ele ainda acrescenta “que alguns trabalhos acadêmicos demonstram que muito do que se achava serem novidades na música da bossa nova, na verdade, eram procedimentos que ocorriam na música popular brasileira já nas décadas de 30 e 40”, citando alguns precursores da bossa nova como os violonistas Garoto e Valzinho, Johnny Alf, Luís Bonfá, João Donato e Vadico.
Música demasiadamente influenciada pelo jazz, inovação ou apenas uma forma diferente de tocar samba, a bossa nova conseguiu, como nenhum outro gênero musical brasileiro até hoje, ganhar visibilidade no cenário internacional como um produto made in Brazil de alta qualidade, mantendo-se viva e com um fôlego de gato em um mercado tão competitivo.