A partir de 1962, o Brasil viveu uma radicalização política que influenciou toda a produção artística nacional, que deixou de ser apenas veículo de entretenimento e passou a transmitir preocupações de caráter político e social. Assim com o golpe militar de 1964, a fase social da bossa nova se iniciou, o que trouxe temas mais “sérios” e engajados para as composições de alguns músicos ligados ao gênero como Marcos Valle, Dori Caymmi, Edu Lobo e Francis Hime. Ao adotar uma postura crítica em relação às influências do jazz americano e influenciado pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), este grupo se aproximou de sambistas do morro, como Zé Ketti, e ganhou a adesão de alguns dos criadores da bossa nova, como Carlos Lyra e Nara Leão.
![]() Capa do álbum "Elis & Tom" (1974): reunião de dois dos mais importantes nomes da bossa nova e MPB |
Essa tendência fica explícita no show Opinião, de 1964, que se transformou em palco de contestação política da classe média carioca e símbolo de resistência à repressão instaurada pela ditadura. Em uma das músicas do show, a “Marcha da 4ª feira de Cinzas”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, pode-se ver claramente a relação da bossa nova com esta nova fase de engajamento social:
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
Destacaram-se neste período, que vai de 1962 a 1966, os artistas Dori Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Marcos Vasconcelos, Nelson Motta, Paulo Sérgio Valle, Pingarilho, Ruy Guerra e Wilson Simonal, entre outros. Esta fase, no entanto, durou pouco, já que em 1965, Vinícius de Moraes, um dos precursores da bossa, e Edu Lobo, que fazia parte da geração de renovação do estilo, comporiam a música “Arrastão”, que marcou o final do gênero e o surgimento de um novo movimento que seria chamado de MPB, a moderna música popular brasileira.
Embora o movimento original que gerou a bossa nova tenha acabado em 1966, o gênero virou referência para várias gerações de músicos. No Brasil, influenciou artistas que criariam a MPB e o Tropicalismo, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano Veloso, por exemplo, na cancão “Saudosismo”, de 1969, fala da importância da bossa nova e de João Gilberto na sua música: Chega de saudade a realidade/é que aprendemos com João/pra sempre a ser desafinados. Mais recentemente, em 1986, ressurgiu na voz de Lobão, na regravação de “Me Chama”, e em 1998, em “Faz Parte do Meu Show”, de Cazuza, que traz arranjos inspirados na bossa nova. No exterior influenciou artistas do jazz como Stan Getz e Charlie Byrd, além de uma corrente do pós-punk britânico, representada pelo Style Council, Matt Bianco e Everything but the Girl.
Além das influências entre músicos, deixou uma série de composições consideradas clássicas, como “Chega de Saudade”, “Coisa Mais Linda”, “Corcovado”, “Desafinado”, “Eu Sei Que Vou Te Amar”, “Garota de Ipanema”, “Insensatez”, “Lobo Bobo”, “Maria Ninguém”, “O Barquinho”, “O Pato”, “Outra Vez”, “Samba de Uma Nota Só”, “Saudade Fez um Samba” e “Se Todos Fossem Iguais a Você”.