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Durante toda a década de 40 e início dos anos 50, ainda reflexo dos tempos difíceis da guerra, o gênero que dominava o cenário musical brasileiro era o samba-canção, um tipo de samba lento e melodioso, que exaltava o amor, a traição e o sofrimento, em graus de intensidade variáveis. As músicas, interpretadas por cantores de voz grave e performance teatral, iam do estilo lírico, com letras cultas e elaboradas, ao trágico, valendo ao gênero o apelido de música de “fossa” ou de “dor-de-cotovelo”. Exemplo disto é a canção “A Deusa da Minha Rua”, de Jorge Faraj e Newton Teixeira, que traz uma visão idealizada da mulher e trágica do amor:
Na rua uma poça d'água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu para o chão
Tal qual o chão da minha vida
A minh'alma comovida
O meu pobre coração.
Infeliz da minha mágoa
Meus olhos são poças d'água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu e ela é nobre
Não vale a pena sonhar.
Essa música tradicional, com seu ritmo, suas letras, sua forma de interpretação definitivamente não combinava em nada com a juventude que vivia uma nova experiência urbana no Rio de Janeiro, com suas lindas praias, belas paisagens, seus bares movimentados, com toda a leveza, alegria e modernidade dos “anos dourados”. Assim, quando a bossa nova surgiu, buscou se apresentar como algo inovador que rompia com a musicalidade anterior e se colocava como vanguarda, conforme afirma a antropóloga e historiadora Simone Luci Pereira. Era enfim uma música feita por jovens e para os jovens de classe média da zona sul carioca, acompanhando o fenômeno de juvenilização da cultura que acontecia no mundo todo.
A inovação surgiu inicialmente na batida do violão de João Gilberto que deslocava o acento da tradicional batida de samba. Seguiu nas letras, que ao contrário dos melodramas de até então, eram leves, descompromissadas, e que em um tom coloquial falavam sobre sol, praia, mar, amor, como se vê na música inaugural do gênero, “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes:
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
O novo gênero se caracterizou também por uma forma de cantar diferente da tradicional. Ao contrário das performances exageradas, dramáticas, as músicas agora eram cantadas sem empostação, em um tom de voz uniforme, quase intimista. “Desenvolver-se-ia a prática do canto-falado ou do cantar baixinho, do texto bem pronunciado, do tom coloquial da narrativa musical, do acompanhamento e canto integrando-se mutuamente, em lugar da valorização da ‘grande voz’", segundo o maestro Júlio Medaglia. Quanto aos instrumentos, a bossa nova também trouxe uma espécie de minimalismo para as apresentações musicais. Embora piano, flauta, trompete, pandeiro e saxofone pudessem fazer parte da música, bastava apenas um violão para se fazer bossa nova.
Aos poucos, as músicas com temas jovens, linguagem coloquial, musicalidade e forma de cantar diferentes, aliadas à batida do violão de João Gilberto, ganharam espaço não só junto à classe média do Rio de Janeiro, como também junto ao público jovem e de maior poder aquisitivo de outras cidades brasileiras. Essa primeira fase da bossa nova foi de 1958 a 1962. São desse período as canções consideradas clássicas do gênero, como “Desafinado”, de 1958 e “Samba de uma Nota Só”, de 1960, que segundo a socióloga e antropóloga Santuza Cambraia Naves, “introduzem um tipo de procedimento em que letra e música, ao mesmo tempo em que se comentam mutuamente, fazem alusões às novidades musicais”. Ainda segundo ela, “os elementos de transgressão da bossa nova encontram-se presentes sobretudo em ‘Desafinado’: no momento exato em que se pronuncia a sílaba tônica da palavra "desafino" ocorre, no plano da música, uma nota inesperada, que representa uma transgressão aos padrões harmônicos da música popular convencional. Outro procedimento que caracteriza as duas composições, colocando-as em correspondência com o tipo de sensibilidade da poesia concreta, é a maneira cool de se lidar com a temática amorosa. Em ‘Desafinado’, por exemplo, a pretexto de uma intriga sentimental, discute-se, na verdade, uma questão estética”:
Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural
“Meditação”, composta em 1959 por Tom Jobim e Newton Mendonça, tornou-se também um dos símbolos da bossa nova ao ter seus versos transformados não só em título do segundo LP de João Gilberto, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, como também em slogan do movimento musical:
Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Então sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais
Já em “Garota de Ipanema”, segundo Luci Pereira, “a bossa nova tantas vezes vista como uma música alegre sem formalizações ou estruturas passionais ou pessimistas deixa aparente outras formas de se sentir a cidade e sua vida cotidiana. Um meio urbano propício ao inesperado como a visão de uma garota que vem, passa e fascina, sem que o reencontro aconteça. Ela não pertence a ninguém, está de passagem, faz parte do fluxo da vida moderna e suas liberdades”:
Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar
Em outra parte, a expressão dos sentimentos de uma forma mais lírica ganha espaço, quando o compositor fala da solidão e da beleza que passa sozinha no constante ir e vir da metrópole, expressadas por um ritmo mais lento:
Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Destacaram-se também neste período os músicos Aloysio de Oliveira, Baden Powell, Billy Blanco, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Durval Ferreira, Geraldo Vandré, Luiz Eça, Maurício Einhorn, Newton Mendonça, Oscar Castro Neves, Roberto Mesnescal, Ronaldo Bôscoli, Sérgio Ricardo e Sérgio Mendes, entre outros.