Introdução

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Que produto brasileiro pode ser facilmente encontrado em um elevador no Japão, na Europa ou nos Estados Unidos atualmente? Errou quem pensou em algum item de tecnologia. Provavelmente será alguma versão instrumental de “Garota de Ipanema”, um clássico da bossa nova que se tornou a segunda música brasileira mais conhecida no mundo (perde apenas para “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso). Em 2005, a Biblioteca do Congresso norte-americano considerou “Garota de Ipanema” uma das 50 grandes obras musicais da humanidade. Canção que, ao ser regravada mais de uma centena de vezes por artistas como Frank Sinatra, Sara Vaughan, Stan Getz, Ella Fitzgerald, Cher e Madonna, entre outros, ajudou a construir a boa fama da “senhora” bossa nova, gênero musical que completa 50 anos em 2008, mas com fôlego de garota de Ipanema de 18 aninhos, principalmente no exterior, onde ainda é valorizada, respeitada e mantida viva, a despeito de ser trilha sonora muzak em elevadores e lobbies de hotéis.

Talvez esse sucesso lá fora possa ser explicado por uma bem-sucedida tentativa de internacionalização da música brasileira que ocorreu nos anos 50, quando o mundo vivia a euforia do crescimento econômico gerado após a Segunda Guerra Mundial. Inspirados pelo desenvolvimento dos Estados Unidos, países do então chamado Terceiro Mundo, como o Brasil, acreditaram que teriam a oportunidade de se emanciparem, tornando-se também grandes nações capazes de competir no cenário mundial em termos políticos, econômicos e culturais. Envolvido por essa onda de otimismo, Juscelino Kubitscheck assumiu a presidência do Brasil em 1956 pondo em prática um projeto desenvolvimentista que transformaria o país em uma nação moderna e urbana, exportadora não só de produtos de uma nascente indústria nacional, mas também de uma cultura desenvolvida por uma classe média cada vez mais representativa. Foi neste contexto quase mágico dos anos 50, também conhecidos como “Anos Dourados”, que a bossa nova surgiu em consonância com a proposta política, econômica e social do Brasil na época. Nascia assim uma música que se pretendia inovadora, criada por jovens de classe média alta do Rio de Janeiro que viviam o sonho de um país moderno.
Chega de Saudade
Capa do álbum "Chega de Saudade" (1959), de João Gilberto: o primeiro do artista e um dos mais importantes da bossa nova


Curiosamente no Brasil, seu país de origem, a bossa nova tem sido alvo de controvérsias entre críticos, estudiosos e músicos. Ela nunca conseguiu se tornar um sucesso popular e ficou praticamente esquecida durante quase três décadas, voltando a ser importada nos anos 90 do exterior, onde músicos brasileiros, muitos deles desconhecidos no Brasil, continuam regravando, compondo e adaptando o gênero a novas tendências.

Música feita pela classe média e para a classe média, assim como também todo o projeto de país idealizado por Juscelino Kubitscheck, a bossa nova é vista como elitista. As críticas ao gênero começam pelos temas que a tornaram famosa. Ao cantar sobre um estilo de vida que gira em torno de praia, mar e sol, é considerada superficial e sem conteúdo. Por incorporar o jazz, gênero norte-americano que tem influenciado músicos no mundo todo, ela é chamada de cópia de má qualidade, contaminada pelo imperialismo cultural dos Estados Unidos. E ao se apropriar do samba e inová-lo, seus críticos a acusam de ter a pretensão de alterar a música que define a verdadeira identidade brasileira.

Concorde-se com isso tudo ou não, o fato é que a bossa nova cumpre, como nenhum outro gênero musical do Brasil conseguiu fazer até hoje, seu objetivo de lançar a música brasileira como um produto de qualidade a ponto de fazê-la ser reconhecida e respeitada no exterior durante décadas. A seguir, saiba mais sobre a história e canções que fizeram da bossa nova um dos mais bem-sucedidos gêneros musicais brasileiros.

Bossa nova: discografia essencial

Entre os principais álbuns lançados pela turma da bossa nova, destacamos a seguir dez discos considerados os mais importantes por críticos e historiadores:

  • Canção do Amor Demais - Elizete Cardoso (1958)
  • Chega de Saudade - João Gilberto (1959)
  • O amor, o sorriso e a flor - João Gilberto (1960)
  • Getz / Gilberto featuring A. C. Jobim - Stan Getz, João Gilberto e Tom Jobim (1963)
  • The composer of Desafinado play - Tom Jobim (1963)
  • Antonio Carlos Jobim - Tom Jobim (1963)
  • Matita Perê - Tom Jobim (1973)
  • João Gilberto - João Gilberto (1973)
  • Elis & Tom - Elis Regina e Tom Jobim (1974)
  • Amoroso - João Gilberto (1977)