Como uma pedra que não cria limo

Like a Rolling Stone” foi a melhor canção que Bob Dylan compôs. Ele disse isso em 1965. Nos anos e décadas seguintes, a crítica, estudiosos, músicos e fãs não só concordaram como a consideraram também a melhor canção do rock de todos os tempos. “Like a Rolling Stone” é uma obra prima que mostrou que o rock poderia explorar temas mais complexos e profundos, com uma qualidade poética que o equipararia à boa literatura, e expressar uma visão de mundo que mais de quatro décadas após ser lançada continua a ser tão verdadeira quanto antes.

Highway 61 Revisited
Capa do álbum Highway 61 Revisited, que traz "Like a Rolling Stone"


Greil Marcus, respeitado pesquisador e crítico de música popular, dedicou um livro a ela e ao seu autor: “Like a Rolling Stone: Bob Dylan at the Crossroad” (2005). O escritor britânico Nick Hornby, autor do best-seller “Alta Fidelidade”, afirma que ela não soa mais como uma coisa nova, entretanto, ainda soa perfeita. Para entender a importância e o impacto da canção até hoje é preciso saber que em 1965, quando a lançou, Bob Dylan era um artista consagrado e sua imagem como cantor de protesto e porta-voz de uma geração, apesar dele não assumir nenhum dos rótulos, estava fixada junto aos meios de comunicação e aos fãs. Faziam parte de sua vida fama, drogas, mulheres e o assédio da imprensa, que ele tratava de forma cada vez mais sarcástica e contraditória. Era uma época em que Dylan estava envolvido na noite nova-iorquina e muito próximo a modelo e atriz Edie Sedgwick, que fazia parte do círculo de personalidades em torno de Andy Warhol, por quem Bob Dylan não nutria muita simpatia.

O mundo à sua volta estava em ebulição. Os movimentos sociais, como o dos direitos civis e o feminismo, ganhavam força e o governo americano começou a eliminar todas as leis de segregação racial e a usar tropas para garantir os direitos dos negros. A oposição à Guerra do Vietnã crescia, principalmente entre os jovens universitários e por conta da cobertura que a televisão fazia, mostrando os caixões dos soldados americanos e os absurdos cometidos contra a população civil vietnamita. Os primeiros anos da década tinham levado a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética a um ponto explosivo, com os episódios da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, por exilados cubanos e agentes da Agência Central de Inteligência (CIA, em inglês), a construção do Muro de Berlim e a Crise dos Mísseis que quase levou a um conflito nuclear. No final de 1963, o presidente norte-americano John F. Kennedy foi assassinado no Texas, o que causou uma comoção no país. Culturalmente, a Pop Arte ganhou projeção no final de 1963 e a aproximação que ela propôs entre arte e vida cotidiana encontrou no rock e seus ídolos uma parceria quase que natural. A contracultura inspirada na Geração Beat ganhava espaço com os hippies. É nesse ambiente que Bob Dylan compôs uma canção de seis minutos e meio com 59 versos que mudariam a história do rock.

“Like a Rolling Stone” narra a trajetória de uma garota da alta sociedade e de sua queda, com a perda de seus bens materiais e de seu status. Vários elementos nos versos caracterizam essa mudança social da protagonista da canção. Enquanto nos primeiros versos de cada estrofe ela é caracterizada com elementos que remetem à riqueza material (ser bem vestida, ter freqüentado a melhor escola, ter um gato siamês e anel de diamante), os versos a seguir em cada estrofe revelam a sua queda (mendigando por comida, morando e vivendo nas ruas), até tornar-se invisível:

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn't you?
People'd call, say, "Beware doll, you're bound to fall"
You thought they were all kiddin' you
You used to laugh about
Everybody that was hangin' out
Now you don't talk so loud
Now you don't seem so proud
About having to be scrounging for your next meal.

How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody has ever taught you how to live on the street
And now you find out you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
He's not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And ask him do you want to make a deal?

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all come down and did tricks for you
You never understood that it ain't no good
You shouldn't let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a Siamese cat
Ain't it hard when you discover that
He really wasn't where it's at
After he took from you everything he could steal.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Princess on the steeple and all the pretty people
They're drinkin', thinkin' that they got it made
Exchanging all kinds of precious gifts and things
But you'd better lift your diamond ring, you'd better pawn it babe
You used to be so amused
At Napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can't refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
You're invisible now, you got no secrets to conceal.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?


“Like a Rolling Stone” é muito mais do que a narrativa dessa queda social da protagonista. A trajetória da Srta. Solitária (Miss Lonely), como a protagonista é chamada, serve de metáfora para expressar temas sensíveis à vida na sociedade contemporânea e fazer um questionamento contundente de valores dominantes. Obra aberta a várias leituras e interpretações, a canção tem seu grau crítico potencializado por um instrumental pesado, que une guitarra, bateria, baixo, órgão, tamborim e piano, num andamento que tem seu ponto alto sempre no refrão.

Logo no primeiro verso, a ironia de usar um começo típico dos contos de fadas – Era uma vez (Once upon a time) – é um recurso que introduz um dos temas centrais da canção: a ilusão. A Srta. Solitária é retratada como alguém que vivia uma vida de riquezas materiais, ostentação e desprezo por tudo que estivesse fora de seu mundo. Além de sua caracterização pela aparência como uma pessoa que pertencia ou que freqüentava as classes altas, os versos revelam também seu modo de ser arrogante e prepotente. A perda dos seus bens leva-a para dentro de um universo que sempre desprezou e que não sabia como lidar. A trajetória da Srta. Solitária é uma poderosa metáfora para o caminho percorrido por alguém que vai da ilusão para a realidade, que sai do universo das aparências para adentrar o da verdade. A desilusão da Srta. Solitária é a sua forma de atingir o entendimento, de tornar-se consciente do que estava ao seu redor.

Nos anos 60, a opulenta sociedade norte-americana, do consumo, do acúmulo de riquezas e da valorização das aparências, enfrentava suas contradições mais profundas: a segregação racial, a Guerra no Vietnã, o florescer de uma cultura que contestava o “american way of life” e que tinha raízes na cultura negra do sul pobre. Entre as várias interpretações possíveis, “Like a Rolling Stone” pode ser vista como uma metáfora sobre essa sociedade que sai da ilusão dos seus idílicos anos dourados (a exuberância do pós-Segunda Guerra Mundial e dos anos 50) para encontrar uma dura realidade de um outro mundo fora dos Estados Unidos (a tragédia no Vietnã e a ameaça da destruição nuclear) e também dentro do próprio país (o assassinato de John Kennedy, o racismo e a pobreza da população negra, a contracultura).

Mas a trajetória da Srta. Solitária não é apenas para revelar essas contradições entre ilusão e realidade. Ela vai além. Em canções anteriores gravadas por Hank Williams e Muddy Waters, “rolling stone” era uma expressão para retratar alguém perdido, errante e solitário, vivendo uma vida de “pecados”. Em “Like a Rolling Stone” (independente das associações que podemos fazer hoje com a história da banda The Rolling Stones), Bob Dylan transporta a figura do “rolling stone” para o refrão e na forma de indagação quer saber da Srta. Solitária como é se sentir como uma pedra rolante, sem lar, sem direção e completamente desconhecida. “Like a Rolling Stone” fala essencialmente sobre como a desilusão e o entendimento podem ser libertadores. Sem amarras, sem ter mais o que perder, sem destino, sem a necessidade de ter ou aparentar ter, crescendo e descobrindo que a vida não é exatamente como aparentava ser ou como lhe disseram que era, a Srta. Solitária na verdade tem a chance de se libertar.

Esta é apenas uma das interpretações possíveis sobre "Like a Rolling Stone", a de uma canção sobre a possibilidade de uma geração caminhar em direção à liberdade, superar os valores impostos por uma sociedade onde o que importa é o dinheiro e o status, ainda que este seja um caminho solitário e doloroso. Bob Dylan pode ter composto outras canções com o mesmo brilho e profundidade poética que “Like a Rolling Stone”. Mas foi ela quem mudou definitivamente o caminho do rock.