Nascido em 1941, em Delluth, Minessota (EUA), Robert Allen Zimmerman aprendeu durante a adolescência a tocar violão e gaita. No final dos anos 50, quando estava na Universidade, adotou o nome de Bob Dylan em suas apresentações, provavelmente influenciado por sua admiração pelo poeta britânico Dylan Thomas (1914-1953).
Com 19 anos de idade, Bob Dylan mudou-se para Nova Iorque, com a intenção de visitar seu ídolo, o cantor folk Woody Guthrie, que estava hospitalizado na cidade. Em apenas alguns meses por lá conseguiu um contrato com a Columbia Records, após receber uma crítica favorável do The New York Times por sua apresentação na abertura do show do bluesman John Lee Hooker. Dylan começou então a se tornar uma figura destacada no Greenwich Village, bairro nova-iorquino que concentrava os artistas e a vida boêmia da cidade, com seu humor cáustico e a profundidade de suas críticas sociais nas letras das canções.
![]() Foto: Annie Leibovitz Capa da edição norte-americana da revista Rolling Stone, em 1978 |
Entre 1962, ano de lançamento de seu primeiro álbum, e 1964, Dylan compôs várias canções folks rotuladas por fãs e pela mídia como música de protesto, como “Blowin’ in the Wind”, “Masters of War” e “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”. É dessa época sua parceria e relacionamento com a assumida cantora de protesto Joan Baez (parceria vista como oportunista por alguns críticos que o consideravam um aproveitador) e sua associação com os grandes nomes da cena folk norte-americana, como Pete Seeger, Rambling Jack Elliot e o grupo Peter, Paul and Mary.
Apesar de sua inserção no cenário folk engajado e de algumas aparições em importantes manifestações, como a Marcha para Washington pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King Jr, em 1963, Bob Dylan não se via como um “cantor de protesto” e muito menos preso a alguma filiação ideológica, como exigiam parte dos fãs, a imprensa e seus parceiros folks, como Pete Seeger. Ao receber em dezembro de 1963 um prêmio do Comitê de Emergência pelas Liberdades Civis, Dylan fez um discurso em que primeiro fala do seu orgulho de ser jovem, e ironicamente diz que gostaria que todos que estavam ali também o fossem: “Pessoas velhas quando perdem os cabelos devem sair. Olho e vejo as pessoas que estão me governando e fazendo as minhas regras. E não têm cabelos sobre a cabeça. Fico nervoso com isso”. A seguir, repele o prêmio que o caracteriza como um compositor temático e deixa claro sua independência como artista: “Para mim não há mais preto e branco, direita e esquerda. Há só para baixo e para cima, e para baixo é muito perto do chão. Estou tentando ir para cima, sem pensar em coisas triviais, como a política”. Autor das canções que eram cantadas como hinos nas mobilizações estudantis e sociais dos efervescentes anos 60, Bob Dylan recusava-se a ser um símbolo ou um marionete da intelectualidade esquerdista norte-americana.
Assim como os escritores beatniks, por quem foi influenciado e se aproximou, como o poeta Allen Ginsberg, Bob Dylan era um artista em busca de um novo caminho, que revelava uma preocupação e uma sensibilidade em relação aos que estavam à margem da sociedade norte-americana. Com sua postura independente, crítica e rebelde, ele abriu esse novo caminho para a canção popular. A ponto de seus fãs mais radicais não aceitarem ou entenderem suas incursões por novos gêneros e temas. Os puristas da música folk foram os primeiros a condená-lo quando ele abraçou o rock como um meio de expressar sua estranheza pelo mundo à sua volta.
Quando 1965 começou, Bob Dylan já era um artista consagrado do folk e da música country norte-americana e estava rodeado de fama, mulheres e drogas (em 1964, ele teria “introduzido” os Beatles à maconha). Mas estava cansado de seu repertório de canções de protesto e chegou a considerar seriamente parar de cantar. Naquele ano, no entanto, ele daria uma reviravolta em sua carreira e também na história do rock. Logo no começo do ano, ele lançou o álbum “Bring It All Back Home” que trazia metade das canções no estilo folk e a outra metade como rock. Se os fãs mais puristas ficaram surpresos com essa primeira guinada de Dylan, a surpresa seria ainda maior com o disco seguinte. Lançado naquele mesmo ano, “Highway 61 Revisited” misturava blues, rhythm’n’blues e rock de garagem e foi como um terremoto na canção popular. Além do petardo musical, da complexidade e da profundidade dos temas abordados nas letras, beirando um existencialismo poético, o disco trazia “Like a Rolling Stone”, canção que mudaria definitivamente a imagem do rock e mostraria que o gênero pode oferecer verdadeiras obras de arte.
Se as letras de Dylan já eram fonte para debates e análises, a partir de “Like a Rolling Stone” esse fenômeno se intensificou. A cultura pop até então nunca tinha sido alvo de tanto interesse e estudos em relação a aquilo de sério que ela produzia. Bob Dylan tinha conseguido elevar as canções populares a um patamar que pertencia ao melhor da poesia e da literatura. Nas entrevistas e reportagens sobre ele virou uma obstinação descobrir quais eram suas “intenções” e motivações naquelas letras. Essa obsessão irritava Dylan que não só não as explicava como também era contraditório e sarcástico nas respostas. Ele já era um artista consagrado mundialmente, com quase 10 milhões de discos vendidos e com versões de suas músicas gravadas por cerca de 150 bandas ao redor do mundo, segundo a revista Rolling Stone.
Em 1966, Dylan sofre um grave acidente de motocicleta que o deixou afastado da cena musical até 1968. Às turnês, ele retornaria somente em 1974. Em 1975, ele lança “Blood on the Tracks”, álbum que é uma de suas obras primas, recheado de canções sobre o amor, paixões, desilusões e indiferenças. Nas décadas seguintes, ainda com a aura de um ícone dos anos 60 e rotulado como poeta, profeta, gênio, Bob Dylan manteve uma produção que o confirmou como um dos mais importantes artistas de todos os tempos. Em 1998, lançou “Time Out of Mind”, um de seus melhores álbuns, e em 2006 levou um disco de blues, “Modern Times”, ao primeiro lugar das paradas norte-americanas. Em mais de quatro décadas de carreira conquistou os mais importantes prêmios do mundo da música, sem deixar de ir do inferno ao céu e do céu ao inferno por diversas vezes.