O blues ecoava intensamente nos sábados à noite pelo delta do rio Mississippi no começo do século 20. Após uma semana de trabalho exaustivo nas plantações de algodão, os trabalhadores negros se reuniam para comer peixe frito, beber uísque, cantar e dançar ao som de canções sobre amores perdidos, aventuras sexuais, traições amorosas, viagens sem destino e os infortúnios do trabalho. Com esses temas, o blues logo foi considerado música do Diabo pelos pastores locais e restava aos pais e esposas dos bluesmen orar por suas almas. Mas, se o diabo era o pai do blues, a situação de pobreza enfrentada pela população negra era a mãe.
![]() Reprodução Honeyboy Edwards é um dos representantes do blues do delta do rio Mississippi |
Após a Guerra de Secessão (1861-1865) que resultou na abolição da escravatura, a economia do sul dos Estados Unidos devastada por anos de batalhas e com suas plantações baseadas no trabalho escravo enfrentou uma situação caótica. Assim, as condições de vida dos ex-escravos e seus descendentes eram precárias. Restava a eles o trabalho duro e extenuante, em condições climáticas implacáveis, e mal remunerado das plantações. O lazer ficava para os finais de semana, sendo que o domingo era reservado a louvar o Senhor nas igrejas locais. Os cultos eram embalados pelo spiritual, canção religiosa profundamente emotiva, resultado da evolução das músicas de trabalho e de protesto cantadas pelos escravos desde o século 17. Já nos sábados à noite predominavam as canções profanas, como o blues. E assim como no spiritual e nas canções de trabalho, o blues é um gênero baseado no estilo “chamado-e-resposta”. Só que enquanto naquelas o “chamado” é feito por um cantor e a “resposta” vem do coro, no blues esse “chamado-e-resposta” fica por conta do próprio bluesman. Esse lamento individual era acompanhado pelo som do banjo ou do violão.
Os primeiros tocadores de blues do delta do Mississippi criaram sonoridades próprias que caracterizaram as primeiras canções. Uma delas vem do diddlybow, um rudimentar instrumento feito com um pedaço de arame amarrado em dois pregos fixados na parede de fora de uma casa e tocado com uma garrafa de vidro sendo movida ao longo do arame para fazer o som das notas musicais. Outra é aquela que se obtém ao colocar um tubo de vidro, feito a partir de um gargalo de garrafa cortado e lixado, no dedo para deslizar sobre as cordas do violão ou do banjo. Dessa forma, era possível tirar do instrumento um som que imitasse a voz humana. No melhor estilo “chamado-e-resposta”, enquanto o bluesman cantava uma frase seu instrumento o respondia com outra.
Provavelmente o blues se desenvolveu desde a segunda metade do século 19 entre a população negra do delta do Mississippi. Mas de forma anônima. Somente no começo do século 20 surgiram artistas que fariam fama com o gênero. Um deles foi William Christopher Handy, um jovem negro líder de uma orquestra. Em 1903, ele esperava o trem em Tutwiler, Mississippi, quando ouviu um homem tocando seu violão, usando um canivete para deslizar sobre as cordas, e cantando na forma de um lamento. Handy usou a canção que ouviu para compor seu primeiro blues, mais tarde reescrito e lançado como “Memphis Blues”. Logo o novo gênero chegaria às estações de rádio e aos discos e se tornaria popular.
Mas a vida no sul pobre e no interior não era nada fácil. Muitos negros começaram a migrar para as cidades grandes da região como Nova Orleans e Memphis e também em direção ao norte, para St. Louis e Chicago. Junto com eles, foi o blues. Nesse caminho, os bluesmen passaram por muitas encruzilhadas, entre elas uma que ficaria imortalizada como ponto de encontro entre Robert Johnson e o Diabo.