Do funk ao hip hop: a black music nos anos 70

O funk inventado por James Brown, a versão mais energética, dançante e expansiva da soul music, misturou-se à onda psicodélica do final dos anos 60 e ingressou na década de 70 como um dos gênero mais populares. O sucesso de artistas e grupos como George Clinton e Funkadelic, Earth, Wind & Fire, Kool & The Gang e Jackson 5 ditou uma nova moda com suas roupas coloridas, cabelos black power e danças coreografadas. Isso, no entanto, não ofuscou a soul music composta por baladas românticas que continuava a produzir hits através de Marvin Gaye, Roberta Flack, Diana Ross, Al Green, Stevie Wonder e Barry White.

Nessa trajetória, a música negra não deixou para trás seu engajamento. Um dos pontos altos desse compromisso foi o Wattstax, um megaconcerto, uma espécie de versão da música negra para Woodstock. Realizado no Memorial Coliseum, de Los Angeles, em 1972, o show relembrou os conflitos raciais que tomaram conta do bairro de população majoritariamente negra de Watts, na região sul de Los Angeles, e que resultaram na morte de 34 pessoas. Promovido pela gravadora Stax, de Memphis, o concerto reuniu alguns dos principais nomes da música negra do gospel ao blues, do soul ao funk, com destaque para a participação de Isaac Hayes.

The Commitments
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O filme "The Commitments" retrata a influência da
"soul music" no Reino Unido entre as décadas de 60 e 70

Além de manter seu engajamento, a música negra norte-americana conseguiu também nos anos 70 expandir suas influências em outras culturas. Durante aquela década, ela passou a ser tão influente como os outros gêneros que dominavam o mercado da música popular jovem. No começo da década de 70, os britânicos desenvolveram a sua própria versão da soul music, o northern soul (é bom lembrar que nos anos 60, os ingleses já haviam recuperado o blues norte-americano ao incorporá-lo ostensivamente aos rocks de Rolling Stones, Eric Clapton, The Who e Led Zeppelin, por exemplo). As influências dos sucessos da Motown e o desenvolvimento de uma cultura de bailes principalmente na região central do Reino Unido provocaram o surgimento dessa versão britânica para o soul norte-americano. Um exemplo desse fenômeno está retratado no filme “The Commitments” (1991, direção de Alan Parker).

No Brasil, a influência da soul music estava presente desde o final dos anos 60, nas canções de Jorge Ben e Wilson Simonal. Em 1970, com o retorno de Tim Maia dos Estados Unidos, trazendo na bagagem toda sua experiência com a black music norte-americana, o gênero se firmou no país. Naquele ano, ele lançou seu primeiro disco que trouxe sucessos como “Azul da Cor do Mar” e “Primavera”. Ainda em 70, Toni Tornado venceu a fase nacional do V Festival Internacional da Canção com o soul “BR-3”. As influências do funk de James Brown e de outros astros da soul music internacional, misturadas a gêneros tipicamente nacionais como o baião e o samba, fariam Tim Maia, Toni Tornado, Jorge Ben e outros artistas como Hyldon e Cassiano produzirem ao longo da década de 70 um repertório de clássicos da black music brasileira. Entre os principais sucessos dessa época estão canções como “A Lua e Eu”, “Na Chuva, na Rua, na Fazenda”, “Gostava Tanto de Você” e “Não Quero Dinheiro (só quero amar)”.

Michael Jackson
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Michael Jackson: do soul e funk dos Jackson 5 a
"Rei do Pop", sem abandonar o suingue da black music

A trajetória da soul music influenciou na segunda metade da década de 70 o surgimento da disco music, ou música de discoteca, e principalmente do rap e da cultura hip hop. A música de discoteca surge como uma versão mais branda do funk e menos engajada do que o soul dos anos 60. Feita para divertir e dançar, ela traz o suingue típico da black music e é propositadamente superficial e sensual. A partir dos anos 80, as características dançantes e a sonoridade da soul music continuaram a influenciar os trabalhos de artistas como Prince e Lenny Kravitz.

Já outra herança do soul nos anos 70 é o rap (ritmo e poesia). Popularizado em Nova Iorque como uma mistura do funk com os “toasters” (espécie de discurso normalmente engajado em temas sociais) dos DJs de reggae, e baseado no uso dos sound systems, conforme a tradição dos guetos jamaicanos, o rap tornou-se o elemento central do hip hop, um fenômeno cultural que se estenderia pelas décadas seguintes.

A black music, do spiritual ao rap, tem demonstrado a vitalidade e a inventividade da cultura negra nos Estados Unidos, a partir do contínuo processo de transformação e atualização dela com elementos de outras culturas. Um processo que se iniciou com o sincretismo das tradições africanas levadas pelos escravos com a cultura européia e cristã. Sua força é tal que ela tem sido a base dos principais gêneros da música popular que têm dominado o mercado mundial.