“Soul music”, a época de ouro da música negra

Autor: 
Sílvio Anaz

O sucesso do rock na década de 50, apesar de um gênero forjado na fusão dos ritmos afro-americanos com a country music, não deu todo o destaque que os artistas negros mereciam. O reconhecimento e a conquista das paradas de sucesso para os afro-americanos só viriam na década seguinte com a soul music, ou a “música de Negro”.

A soul music era uma mistura de gospel e rhythm’n’blues. O gênero começou a ganhar feições com as canções de Ray Charles e Sam Cooke ainda nos anos 50. Mas foi com o surgimento da gravadora independente Motown no começo dos anos 60 que a soul music ganhou o mundo. Além da Motown, de Detroit, as também independentes Atlantic, da Filadélfia, e Stax, de Memphis, se destacaram ao lançarem os principais nomes do gênero nos anos 60 e 70.

Marvin Gaye
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Marvin Gaye foi um dos ícones e um dos
mais populares artistas da "soul music"
com suas baladas românticas e sensuais

O surgimento e o sucesso da soul music foram simultâneos ao desenvolvimento do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. A luta contra a segregação racial resultou em mudanças nas legislações racistas no país e no fortalecimento do movimento pela valorização da cultura negra. Além disso, as ações políticas dos negros ganharam peso com as atuações pacifistas do reverendo Martin Luther King Jr e a movimentação nem um pouco pacifista da organização política Panteras Negras, adepta do lema “black power”. Produto direto desses momentos efervescentes e dessa busca pelas conquistas sociais, econômicas e políticas nos anos 60 e 70, a soul music oferecia um repertório composto em sua maior parte por baladas que têm o amor como tema central. Mas havia também canções “engajadas” que enfatizavam o orgulho da herança africana e as precárias condições de vida enfrentadas pela grande maioria dos negros americanos.

O sucesso que a soul music fez a partir dos anos 60 acompanhou as conquistas dos negros na sociedade americana. Ao mesmo tempo em que as canções do gênero ocupavam os primeiros lugares das paradas de sucesso nos Estados Unidos, e também no Reino Unido, surgiram novas oportunidades econômicas e de participação política, mudanças culturais e ações concretas que eliminaram as legislações segregacionistas.

Diana Ross
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Diana Ross na capa da Rolling Stone: de integrante
das Supremes a um dos destaques da era da disco music

Nessa era de ouro da soul music, algumas músicas e artistas viraram fenômenos. Um deles foi Marvin Gaye, com suas canções com forte conotação sexual, como “Let’s Get It On” e “Sexual Healing”. Aretha Franklin com sua notável voz oriunda da canção gospel tornou-se a “Rainha do Soul”, a partir de sucessos como “Respect” e “I Say a Little Prayer”. Outra migração bem-sucedida do gospel para o pop da soul music foi a do dueto Sam & Dave. Os cantores Sam Moore e Dave Prater chegaram ao número um das paradas de rhythm’n’blues com as canções “Hold On, I’m A-Comin” e “Soul Man”. Liderado por Diana Ross, o grupo vocal feminino Supremes emplacou sucesso atrás de sucesso nos anos 60, como “Baby Love” e “Stop! In the Name of Love”. Ainda na linha de baladas românticas, que reuniam melodias perfeitas e a beleza lírica das letras, destacaram-se nessa época Ray Charles, Sam Cooke, Dionne Warwick, Temptations e Otis Redding. A soul music reuniu uma geração de incomparáveis compositores, intérpretes e músicos. Um marco não só na história da música negra como de toda a cultura pop.

Mas tinha mais. Antes mesmo de Aretha Franklin ser coroada a “Rainha do Soul”, o título de padrinho do gênero ficou com James Brown. Desde meados dos anos 50, ele de um lado e Sam Cooke de outro começaram a inventar a soul music. Brown fez com suas misturas de gospel e rhythm’n’blues e sob influência dos rocks de Little Richards um caldeirão de ritmos alucinadamente dançantes e com letras bombásticas, como nos sucessos “I Got You (I Feel Good)” ou “Get Up (I Feel Like Being A) Sex Machine”. No meio do sucesso da soul music que ele fez nascer, Brown começou a inventar um novo ritmo, o funk, e com ele uma nova forma de dançar. Uma versão anárquica do soul com ênfase na sonoridade do baixo e da percussão, o funk iniciou um novo ciclo de influências da black music que desaguaria na disco music e no hip hop nos anos 70.