A black music começou a nascer quando os escravos africanos, trazidos para a América do Norte, criaram novas formas de se manifestar culturalmente. A interação entre o passado, das tradições culturais da África que traziam consigo, e o presente, representado pela imposição dos valores europeus e cristãos, resultou em originais expressões na dança, na linguagem, na religião e, principalmente, na música dos negros africanos e seus descendentes na América. Transmitidas oralmente de geração para geração, essas formas originais de expressão cultural foram fundamentais para os negros sobreviverem à opressão e enfrentar a dura realidade de trabalhos em condições subumanas, que persistiram mesmo após o fim da escravidão, como nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos.
![]() Reprodução Com sua impressionante voz, reconhecida como uma das melhores da história da música popular, Aretha Franklin é considerada a "Rainha do Soul" |
Uma das mais populares dessas manifestações era o canto religioso negro. Chamado de spiritual, ele se desenvolveu no século 18 com a adoção do cristianismo pela população negra como uma forma de “libertação”. Resultado da tradição religiosa afro-americana que se formou, o spiritual foi uma evolução das músicas de trabalho e de protesto cantadas pelos escravos no campo desde o século 17. Fora das tradições religiosas, as canções dos escravos evoluíram para na virada do século 19 para o 20 desembocar em dois novos gêneros: o blues e o jazz.
Nascido no sul dos Estados Unidos, o blues surgiu como um gênero rural com sonoridade e letras melancólicas, cheias de angústia e que retrataram a dura realidade social dos negros. Décadas após a abolição, a rotina da população negra norte-americana ainda era de sofrimento e privações. As oportunidades de diversão estavam nos encontros dominicais nas missas nas Igrejas e nos bailes nas noites dos sábados, regados a uísque. Assim, formou-se uma tradição em que os domingos pertenciam ao Senhor, enquanto as noites de sábados ficavam a cargo do Diabo.
Nessas noites de diversão e prazer, além de uísque e blues, havia também o ragtime, um ritmo que misturava as tradições orais com as influências européias e resultava num estilo único e animado de tocar piano. Em pouco tempo, a junção do blues e do ragtime daria origem a um novo gênero, o jazz. Pequenas bandas de músicos negros faziam improvisações em cima de marchas com bases melódicas simples. O jazz evoluiu rapidamente para uma dança de salão das mais populares entre negros e brancos, e criou uma série de variações, como o swing e o bebop.
Ao longo da primeira metade do século 20, as músicas afro-americanas, sejam as religiosas, como o gospel (evolução do spiritual com canções que destacam vocais e coros e que expressam uma intensidade espiritual de forma dramática e emotiva), sejam as seculares, como o blues e o jazz, se popularizaram cada vez mais. Entre as décadas de 40 e 50, suas vertentes já totalmente urbanizadas dariam origem ao rhythm’n’blues (uma mistura de jazz e blues, com ênfase nos vocais, feita para dançar) e ao rock’n’roll, dois novos gêneros que dominariam a canção popular ao redor do planeta a partir de então.