Elvis Presley e Feitiço Havaiano

Autor: 
Susan Doll

Em 14 de março de 1961, Elvis e diversos amigos, assistentes e seguranças voaram para Los Angeles para que ele pudesse começar a produção de seu próximo filme, Feitiço Havaiano (Blue Hawaii). Ao chegar, ele passou alguns dias de muita diversão com os amigos Juliet Prowse, Joan Blackman e Pat Fackethal, uma aeromoça na vida real que havia sido selecionada para fazer um pequeno papel de aeromoça no filme. Depois, ele apertou o cinto de segurança para gravar as canções que fariam parte da trilha sonora. Elvis gravou as faixas para a comédia musical de orçamento modesto em Hollywood, em vez de Nashville, onde muitas de suas músicas que não faziam parte de trilhas sonoras eram produzidas.

Feitiço Havaiano foi o primeiro de uma série de filmes conhecidos como os
Feitiço Havaiando foi o primeiro de uma série de filmes
conhecidos como "Travelogues de Elvis Presley"

Apesar desse ter sido um ano normal de negócios para Presley, em retrospecto, ele marca uma transição em sua carreira. Sua equipe de empresários, composta por Coronel Parker, Elvis, Hal Wallis e Abe Lastfogel, e o agente de Elvis, William Morris, haviam determinado que os filmes deveriam ser o foco da sua carreira, mas Feitiço Havaiano estreitaria ainda mais esse foco. Como foi o filme com maior bilheteria de Elvis, ele se tornou o modelo para o tipo de comédia musical associada a ele durante a década de 60. À medida que a década passava, todas as outras gravações de Elvis ficaram em segundo plano em comparação com as músicas para filmes.

A trilha sonora de Feitiço Havaiano podia estar bem distante do rock 'n roll ou ritmos blues, mas deu a Elvis a canção com a qual ele fecharia a maioria de seus concertos da década de 70: "Can't Help Falling in Love". Gravado em Radio Recorders em Hollywood em 1961, Feitiço Havaiano apresentava 14 canções, mais do que qualquer outra trilha sonora de Elvis.

O material não era especialmente criativo, nem possuía a mistura de sons encontrada em Elvis Is Back!, mas é um sólido exemplo da mistura de pop e rock que definiu a música de Elvis para filmes. Feitiço Havaiano (o álbum e o filme) destinava-se a um público muito mais amplo que suas gravações de estúdio. Os empresários de Elvis estavam interessados em cativar o público geral e gerar vendas espetaculares.

Eles estavam menos preocupados com o impacto de sua música ou seu papel como um inovador musical. Este e outros álbuns de trilhas sonoras destinavam-se a atender a uma finalidade diferente e cativar públicos diferentes. Infelizmente, à medida que os anos 60 passaram, a qualidade do material dos filmes se deteriorou, com um reflexo negativo em todas as trilhas sonoras.

A maioria das 14 canções do álbum são faixas no estilo popular. Algumas delas não foram escritas para o filme, tendo sido gravadas e lançadas anteriormente, incluindo "Moonlight Swim", "Blue Hawaii", e "Hawaiian Wedding Song". "Aloha Oe" foi composta pela Rainha Liliuokalani do Havaí em 1878. A faixa-título e a canção "Aloha Oe" foram gravadas nos anos 30 por Bing Crosby durante um surto de popularidade das ilhas tropicais.

As canções compostas para o filme também não eram rock,'n roll, apesar de Feitiço Havaiano ter sido a trilha sonora mais vendida de Elvis. Ela atingiu o topo da lista de álbuns Billboard dois meses após seu lançamento em outubro de 1961. Ele foi o álbum No. 1 no país por 20 semanas, o que marcou um recorde para um artista ou grupo de rock que durou até 1977 quando Rumors Fleetwood Mac's o quebrou. Feitiço Havaiano permaneceu na lista de álbuns por 79 semanas e recebeu a condição de álbum de platina dupla pela RIAA em março de 1992.

Após a trilha sonora ter sido gravada, Elvis e seu grupo voaram para Honolulu para um mês de gravações no local. Os fãs havaianos estavam tão empolgados quanto os do continente, tentando insistentemente entrar no hotel de Elvis para ver seu ídolo. Alguns fingiam ser mensageiros com pacotes de entrega especial que somente Elvis poderia assinar; outros conseguiram subir pela saída de incêndio.

Os fãs se reuniam na praia próxima ao seu hotel e riscavam mensagens na areia que Elvis podia ver de sua janela. Finalmente, um segurança foi colocado do lado de fora do quarto de Elvis 24 horas, e restringiu suas atividades fora das locações de filmagem. O tempo pessoal de Elvis no Havaí não foi nada da aventura divertida e cheia de ação mostrada no filme.

O local exótico era um elemento fundamental na promoção de Feitiço Havaiano e no seu sucesso. O cenário proporcionava mais do que apenas uma cinematografia linda. Como paraíso tropical, o Havaí era o local perfeito para o romance, e represenvata uma fuga do mundo quotidiano da maioria dos espectadores. Até mesmo o título reforçava o local, fazendo o público lembrar do lindo paraíso que havia se tornado o 50º estado dos EUA em meio a muita comemoração em 1960.

A indústria do entretenimento havia aproveitado a vantagem do interesse público na admissão do Havaí à união com o lançamento de Feitiço Havaiano e Gidget Goes Hawaiian na tela grande em 1961 e a série de TV Hawaiian Eye na tela pequena em 1959.

O romance e a fuga que compunham o cenário se tornaram ingredientes essenciais da fórmula dos filmes posteriores de Elvis. Ele voltou ao Havaí para filmar Garotas e mais garotas (Girls! Girls! Girls!) e No Paraíso do Havaí (Paradise, Hawaiian Style), foi para a Flórida para filmar Em Cada Sonho um Amor (Follow ThatDream), Louco por Garotas (Girl Happy), Meu Tesouro é Você (Easy Come, Easy Go) e O Barco do Amor (Clambake). Os filmes O Seresteiro de Acapulco (Fun in Acapulco), Loiras, Morenas e Ruivas (It Happened at the World's Fair) e Amor a Toda Velocidade (Viva Las Vegas) mostram ação em locais óbvios. Os filmes Feriado no harém (ou Ritmos e confusões - TV) (Harum Scarum) e Canções e Confusões (Double Trouble) oferecem fabulosas aventuras em países distantes.

Qualquer espectador familiarizado com filmes de Elvis reconhece a prevalência de cenários exclusivos e exóticos, mas nem todos percebem a medida na qual esses cenários afetam o filme todo. Por exemplo, os personagens de Elvis eram de espíritos independentes que trabalhavam como pilotos de carros de corrida, guias turísticos, apresentadores ou capitães de barco - profissões não usuais, no mínimo. Mesmo assim elas parecem ser quase adequadas, dados os cenários exóticos. De certo modo, os cenários determinavam as profissões dos personagens de Elvis, que indiretamente ajudavam a defini-los como almas livres que rejeitam o estilo de vida convencional, com jornada de trabalho normal.

Além disso, cenários exóticos e de férias passam a idéia de escapar para o paraíso para fugas românticas. Por décadas, folhetos de viagem têm usado essa mesma noção para despertar o interesse dos turistas em terras distantes. Assim que os espectadores reconheciam o cenário de um filme de Elvis como exótico, exclusivo ou uma atração para viajantes em busca de diversão, o palco estava armado para o romance.

E o romance era a principal atração em um filme de Elvis Presley. O roteiro podia estar centrado na busca de uma aventura, mas em paralelo estava a busca de uma linda mulher por um Elvis como herói destemido. A história é concluída quando o objetivo é alcançado ou a busca é atendida, o que é representado pela união do personagem de Elvis com sua principal garota. A conclusão final do filme em termos de atingir uma meta e ganhar a garota é geralmente indicada pelo número musical final no qual um casal é unido por meio de uma canção e/ou dança.

Feitiço Havaiano estabeleceu firmemente esse padrão. Aqui, Elvis interpretou Chad Gates, um jovem ambicioso que acaba de sair do exército e se recusa a entrar no negócio da família. Ao final do filme, após várias desventuras, ele havia formado seu próprio serviço de guias turísticos.

O fato de ele ser um sucesso é indicado por seu casamento com sua namorada, Maile, porque ele recusou-se a casar com ela até ter provado a si mesmo que conseguiria vencer. "Hawaiian Wedding Song" que finaliza Feitiço Havaiano, faz parte de sua cerimônia de casamento e serve para anunciar sua união. A realização do sonho de Chad e a conquista de Maile são fatos bem entrelaçados nesse número final.

"Hawaiian Wedding Song" dá um excelente exemplo de como a música de Elvis mudou desde seus filmes antes de servir ao exército até os travelogues de Presley. Elvis não canta essa canção em um cenário no palco, ele canta a alguém que compartilha as luzes com ele, e a canção avança a história. A maioria dos números da produção no filme são apresentados de modo similar, que era o oposto total aos números musicais em seus filmes antes de ter servido no exército.

Blue Hawaii estabeleceu a fórmula para a apresentação das canções nos filmes de Elvis desde então, após Elvis ter servido no exército, as canções dos filmes são integradas ao enredo, ajudando a avançar a história ou relatar algo sobre os personagens aos espectadores. Neste tipo de musical, os personagens tendem a começar a cantar a qualquer momento - na praia, em um carro e até mesmo montados a cavalo. Elvis não apreciava esse tipo de musical e se sentia desconfortável quando seu personagem cantava em situações onde as pessoas normalmente não cantariam.

As canções que Elvis Presley cantou em Feitiço Havaiano eram essenciais para o enredo do filme.
As canções que Elvis Presley cantou em
Feitiço Havaiano eram essenciais para o enredo do filme

Como os números musicais freqüentemente contam parte da história, muitas vezes eles incluem outros personagens. Na maioria das vezes, os personagens de Elvis cantam para as principais personagens femininas ou dançam com elas como uma maneira de conquistar o seu amor ou para simbolizar a crescente afeição do casal. Às vezes o filme apresenta Elvis cantando para uma criança, um animal de estimação ou uma velha para ajudar a atenuar a natureza errante de seus personagens. Em Feitiço Havaiano, Chad presenteia a avó de Maile com uma caixa de música que toca "Can't Help Falling in Love", com a qual Chad canta junto. A cena ajuda o público a entender que Chad não é o jovem rude e imaturo que seus pais acreditam ele ser.

O estilo artístico de Elvis em Feitiço Havaiano e em seus filmes posteriores é bem diferente daquele em seus filmes dos anos 50. Foram-se os movimentos sensuais de quadril, balanço das pernas, impulsos pélvicos e gestos dramáticos das mãos que deixavam as garotas loucas em A Mulher que eu Amo (ou Estranhos na cidade - TV). Elvis ainda se move enquanto canta, mas seu estilo é claramente suavizado. Isto pareceu uma mudança adequada se Elvis estava cantando para outro personagem.

O notório estilo artístico do início de sua carreira não era adequado para situações românticas ou quando cantava para uma criança ou avó. Quando ele não estava cantando para outra pessoa, ou quando ele cantava uma canção com um ritmo mais rápido, um grupo de belas mulheres freqüentemente dançava no plano de fundo. Assim, Elvis não mais precisava mover-se provocativamente porque um coral de mulheres o fazia por ele. Afinal, mulheres dançando de maneira sensual ou provocativa era uma visão mais convencional - e portanto mais aceitável - em filmes para o público em geral.

O estilo amenizado de Elvis era menos controverso e considerado mais adequado para o entretenimento familiar. Seus veículos de comédia musical foram concebidos para atrair o público familiar. Elvis, Coronel Tom Parker, Hal Wallis e Abe Lastfogel queriam tornar Elvis um personagem masculino maduro nos filmes. Seu novo estilo de cantar e a música do tipo popular mais suave ajudaram a conseguir isso. Uma versão dessa imagem havia sido apresentada em Saudades de um Pracinha (G.I. Blues), mas foi aperfeiçoada em Feitiço Havaiano, provavelmente as melhores comédias musicais de Elvis.

Feitiço Havaiano era bem concebida e inteligentemente adaptada à nova imagem de Elvis. Também foi um sucesso total. Apesar de ter tornado Elvis Presley uma estrela muito bem paga, isso limitou os tipos de papéis que ele podia desempenhar, pois estabeleceu a fórmula que seus filmes seguiram até o final da sua carreira em Hollywood. Muito já foi escrito sobre como a esperança que Elvis tinha de se tornar um ator sério foi frustrada pela fórmula. Seu potencial como ator foi uma casualidade de seu sucesso como estrela cinematográfica. Devido à significância que representou na carreira de Elvis, Feitiço Havaiano é tão reverenciado como atacado.

Com algumas notáveis exceções, a fórmula de Feitiço Havaiano define a maioria de seus filmes, que Elvis chamava com desprezo de "Presley travelogues" os cinéfilos e biógrafos de Presley se referem a esses filmes como "veículos". Em Hollywood, um veículo é um filme construído ao redor da imagem de uma estrela. Uma estrela desempenha um papel baseado na própria personalidade da estrela, em vez de retratar um personagem complexo e tridimensional. Veículos demonstram a especialidade de um artista, e nesse sentido, estrelas musicais tendem a se beneficiar mais do que outros atores ao aparecer em veículos.

Veículos apresentaram muitas estrelas musicais e comediantes altamente respeitados, incluindo Fred Astaire, Ginger Rogers e Bob Hope. Nesse contexto, a decisão de Hal Wallis de mostrar os talentos de Elvis Presley em uma série de comédias musicais era lógica.

Para saber mais sobre o sucesso continuado de Elvis nesses veículos de comédia, veja a próxima seção.

Para obter mais informações sobre Elvis Presley, consulte: