The Beatles: a fase aparentemente bem-comportada

O lançamento do compacto “I want to hold your hand” em 1963 foi a senha para a invasão britânica comandada pelos Beatles ao mercado norte-americano, desde aqueles tempos o mais importante do planeta para a indústria fonográfica. E como toda invasão que dá certo, essa foi bem preparada. O single era o quinto lançado pelo quarteto de Liverpool. Para alcançar o tão almejado mercado americano eles foram cuidadosos com a aparência e a personalidade que mostrariam e ensaiaram detalhadamente a presença no palco e o relacionamento com a mídia. Em janeiro de 1964, conforme o planejado, eles iniciaram a turnê pelos Estados Unidos que consagrou para sempre a beatlemania como um dos mais impressionantes fenômenos culturais.

Beatles Abbey Road
Reprodução
George, Paul, Ringo e John (da esquerda para a direita)
na capa do álbum "Abbey Road"


Os Beatles estavam na estrada desde 1960 quando fizeram suas primeiras viagens para Hamburgo, na Alemanha. O grupo tinha na sua formação inicial, além de Lennon, McCartney e George Harrison – todos oriundos do John’s Quarry Men –, o baixista artista plástico Stuart Stutcliffe, que pouco de baixo sabia mas que com a venda de seus quadros tinha grana para comprar os equipamentos do grupo, e Pete Best na bateria. Quando Sutcliffe deixou o grupo para ser só artista plástico, McCartney assumiu o baixo (essa fase “pré-histórica” dos Beatles é contada no filme “Os cinco rapazes de Liverpool”, dirigido por Iain Softley e lançado em 1994).

Com essa formação, o grupo fez suas primeiras e hoje lendárias apresentações no Cavern Club, em Liverpool. Foi lá que um jovem chamado Brian Epstein os viu pela primeira vez. Ao assumir o gerenciamento da carreira da banda, Epstein trocou o visual deles de jaquetas de couro e jeans para ternos Pierre Cardin e sugeriu o corte de cabelo meio andrógino que viraria uma das marcas registradas de uma época. Além disso, pouco antes de levá-los para a primeira gravação em estúdio, convenceu-os a substituir Pete Best por Ringo Starr. Em 11 de setembro de 1962, o grupo, com a formação definitiva, gravou um compacto com as canções “Love me do” e “P.S. I love you”. No mês seguinte, o disco já estava entre os 20 mais tocados e vendidos no Reino Unido.           

O quinto Beatle

George Martin foi o produtor dos treze álbuns originais dos Beatles. Sua genialidade musical o levou a ser considerado o “quinto Beatle” pela importante contribuição que deu no resultado final das gravações da banda. Visto pelos críticos e pelos músicos como um dos melhores produtores musicais da história, ele também tocou piano em várias das canções gravadas pelos Beatles.

O lançamento de “Love me do” ressuscitou o recém-nascido rock, que andava moribundo desde que Elvis Presley deixou de ser inventivo (coincidentemente logo após ter servido no exército americano). A harmonia, a estrutura rítmica e a variedade de sons criada pelos quatro rapazes de Liverpool abriu a percepção do público para uma nova geração de roqueiros que incluiria The Rolling Stones, The Who, The Kinks e Pink Floyd. Os primeiros anos desde o lançamento de “Love me do” foram marcados por um sucesso atrás do outro. Quando desembarcaram nos Estados Unidos, eles foram a grande atração de vários programas televisivos. Suas aparições no The Ed Sullivan Show foram assistidas por cerca de 70 milhões de pessoas.

Em abril de 1964, eles alcançaram a impressionante marca de ter cinco de suas canções nos cinco primeiros lugares das paradas de sucesso: “Can't buy me love”, “Twist and shout”, “She loves you”, “I want to hold your hand” e “Please please me”.  Em agosto daquele ano foi lançado “A hard day’s night”, o primeiro filme estrelado pela banda, que foi um sucesso imediato. Mas, definitivamente, o marco mais simbólico do alcance da beatlemania aconteceu em 15 de agosto de 1965, quando o grupo reuniu 55 mil fãs no Shea Stadium, em Nova York. Eles não só provavam ter uma popularidade sem limites como inauguravam a era dos grandes concertos de rock que permanece até hoje.

Àquela altura, em meados dos anos 60, o grupo já tinha feito história com suas canções de amor e uma receita de música pop que seria imitada planeta afora. Eles foram condecorados pela Rainha da Inglaterra com a Ordem do Império Britânico, fizeram uma turnê mundial que foi da Europa à Oceania e lançaram seu segundo filme, “Help!”, outro sucesso imediato de bilheteria. Parecia não haver mais o que os Beatles podiam suplantar no universo da cultura pop. Mas eles superariam a eles mesmos com o lançamento do álbum “Rubber Soul”, no final de 1965. As canções de amor com levada mais pop deram lugar a temas mais políticos e “sérios”, influenciados pela sofisticada poética de Bob Dylan. Começava uma nova fase artística que traria mais uma surpreendente revolução na história do rock e da cultura jovem.