Canções que levam a uma fusão de razão e sensualidade nos ouvintes, de coisas que muitas pessoas se esforçam para colocar em suas vidas. Este seria o segredo do sucesso das canções do Interpol junto ao público, segundo trabalho acadêmico da pesquisadora Meghann Wilhoite, apresentado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque (EUA).
![]() Capa do álbum "Our Love to Admire", lançado em 2007 |
Várias das letras interpretadas por Paul Banks expressam uma preocupação com o corpo, com as necessidades e as sensações físicas. Além disso, seus versos são abertos a várias interpretações, que levam a um empenho intelectual dos ouvintes em função dos múltiplos significados e narrativas que as palavras e sua construção poética possibilitam. Contribui também para isso, segundo Wilhoite, a sonoridade altamente orquestrada da banda e o movimento cíclico da harmonia e da melodia das canções que poderia se repetir infinitamente.
O processo de composição de muitas das canções do Interpol parece bem democrático. Segundo seus integrantes, começa pela música a partir de uma progressão de acordes apresentada pelo guitarrista Daniel Kessler e sofre várias alterações de direção com as intervenções do baixista Carlos D. e do baterista Sam Fogarino. Apesar do vocalista Paul Banks trabalhar nas letras enquanto esse processo está em andamento, ele somente as finaliza após a música (harmonia, melodia e ritmo) da canção ter sido terminada.
Nesse processo, o Interpol tem feito composições com um ritmo de persistentes repetições e uma sonoridade fria e sombria. Nas letras escritas por Banks, alvo de críticas que as consideram banais, o compositor usa vários recursos poéticos, segundo o estudo de Wilhoite, tais como metáforas, comparações e sinédoques, este último um sofisticado mecanismo da linguagem que usa uma parte para descrever o todo.
Na canção “Narc”, do álbum “Antics”, a metáfora é com os agentes federais norte-americanos responsáveis pelo combate ao narcotráfico, chamados de "narc", que são hábeis em se infiltrar de forma disfarçada e especialistas nas técnicas de manipulação das pessoas. Assim, ao cantar sobre um relacionamento amoroso, o protagonista em “Narc” aparece como um caçador à espreita, com pedidos que manipulam a companheira de uma maneira elaborada, como por exemplo na terceira estrofe da canção:
Feast your eyes, I'm the only one
Control me, console me
'Cause that's just how it should be done
Oh, all your history's like fire from a busted gun
I show some love and respect
I don't wanna get a life of regret
Em “No I in Threesome”, do álbum “Our Love to Admire”, o Interpol fala sobre o amor de uma maneira meio que apocalíptica como mostram os primeiros versos:
Through the storms and the light
Baby, you stood by my side
And life is wine
But there are days in this life
When you see the teeth marks of time
Two lovers divide
Sound meets sound, babe
Her echoes they surround
And know that we need is one thing
Now what is there to allow?
Babe, it's time we give something new a try
Oh, alone we may fight
So, just let us be three
Com um tom quase monocórdico dos instrumentos e da voz, que trazem uma sonoridade de tom sombrio à música, mas a fazem dançante também, a canção traz uma letra que pode ser interpretada como uma sugestão de sexo a três (ou que os protagonistas tenham um filho?!), mas envolta em uma atmosfera melancólica e até de certo desespero.
O sucesso das canções do Interpol é mais uma prova de que a melancolia pop, expressa em letras pessimistas, quase depressivas, mas com uma sonoridade dançante, manteve seu espaço nessa renascença do rock no novo milênio. Para quem não conhece Joy Division, é uma introdução.
Turn On the Bright Lights (2002) Antics (2004) Our Love to Admire (2007) |