![]() Alexander Yakovlev © istockphoto.com |
Ex-bailarino de Martha Graham, Cunningham não via mais sentido em dançar histórias concretas e encarnar “personagens”. Influenciado pela filosofia zen e pelo seu companheiro John Cage, compositor revolucionário, ele não só mudou o conceito de dança para quem a faz, mas também para quem a vê. Para os bailarinos, Cunningham suprimiu toda hierarquia que dominava o balé desde o clássico, com solistas e primeiros-bailarinos no alto da escala de importância. E no centro do palco. Sem hierarquia, e com bailarinos ocupando todo o espaço cênico, Cunningham impõe ao espectador uma nova maneira de olhar o espetáculo. A noção de perspectiva, primordial desde a Renascença, é simplesmente eliminada. Mas não é só isso. O coreógrafo, que até hoje, aos 90 anos, inventa novas maneiras de criar a sua arte – com softwares e até iPods – também foi responsável pelo mais importante divórcio das artes no século 20: a separação da dança e da música. Com Cunningham, a dança simplesmente deixou de “correr atrás” o tempo todo da música. Ele compõe movimentos de maneira totalmente independente de qualquer partição musical, e sem nenhuma proposição dramática ou sentimental. O ponto central, o “motor”, da sua criatividade é o corpo e o movimento “puro”, sem expressão ou páthos.
Merce Cunningham não revolucionou apenas a maneira de se fazer e de ver a dança. Ele redirecionou todo o pensamento da dança, dando à arte coreográfica um novo status. Sem Cunningham, a dança pós-moderna dos anos 60 e 70, a nouvelle danse francesa dos anos 80, ou simplesmente a dança contemporânea provavelmente não existiriam.
Desde essa “revolução Cunningham”, a dança não cessou de ganhar novos paradigmas, novos estilos, num movimento incessante de contestação e revisão. A geração pós-Cunningham, nos Estados Unidos, investiu nos happenings, nos lugares alternativos, como a igreja Judson de Nova Iorque, ou as performances da companhia de Trisha Brown nos tetos da cidade ou nos lagos dos parques. Brown privilegiou a fluidez do movimento, com a coluna vertebral ondulante, em oposição aos movimentos mais rígidos e às poses de Cunningham. Luncida Childs, contemporânea de Brown, investiu no minimalismo e nos aspectos matemáticos da construção coreográfica.
Os desenvolvimentos da dança são múltiplos e fascinantes. Na Alemanha, Pina Bausch reinventa o expressionismo e transforma-o em dança-teatro. Na França, nomes como Jean-Claude Galotta, Odile Duboc ou Dominique Bagouet criam uma french touch da dança, num movimento que ganhou o nome de nouvelle danse française, caracterizada principalmente pela inventividade de movimento e a particularidade de cada artista.
![]() Divulgação / www.grupocorpo.com.br Cena do espetáculo Lecuona (2004) do Grupo Corpo, com coreografia de Rodrigo Pederneiras |
O balé, obviamente, nem por isso virou “peça de museu”. A técnica também evoluiu, graças a artistas como George Balanchine (1904-1983), que se concentraram em depurar a técnica, concentrando-se nas suas formas geométricas, em coreografias como “Apolon Musagete” (1927) ou “Os quatro temperamentos” (1946), com a companhia que ele ajudou a criar, o New York Ballet. Ou Maurice Béjart (1927-2007), que nos anos 60 valorizou o corpo masculino, a sensualidade, e deu ao balé um caráter popular, lotando ginásios. Em Bruxelas, Béjart criou uma escola internacional, centro nevrálgico da nova onda belga da dança, surgida nos anos 90, cujo nome central é o de Anne Teresa de Keersmaeker, diretora de uma escola mundialmente conhecida e formadora de novos talentos, a PARTS.
No Brasil, o novo estilo inventado por Pederneiras com o Grupo Corpo, a injeção tônica da dança esportiva de Débora Colker, o virtuosismo e a energia de Henrique Rodovalho (Quasar), o engajamento social e estético de Lia Rodrigues e, ainda, Bruno Beltrão, que parte do hip-hop para construir coreografias de grande requinte intelectual, mostram que a dança também abriu novas fronteiras, tornando-se cada vez mais aberta e eclética.
O balé, na verdade, não virou dança, mas danças. A tal ponto que na França dos anos 90, o estilo de um grupo de artistas foi classificado de “não-dança”, fazendo da ausência de movimento – ou muito pouco – o ponto central para questionar os paradigmas do espetáculo em si. E, assim, questionar a nossa sociedade “espetacular”.