As origens do balé clássico

Uma concepção universalista da dança vê a arte do movimento como a primeira manifestação artística do homem, conjuntamente com a arquitetura. É o que defende o psicólogo inglês Havelock Ellis (1859-1939) no seu livro “The Dance of Life” (1923). Se danças tribais e folclóricas ainda existem em muitos países, uma característica fundamental do balé é o fato dele se desenvolver num palco, face a um grupo de espectadores num espaço teatral, constituindo assim uma “dança espetacular”, ou simplesmente um espetáculo, com regras e particularidades que datam da Renascença. Período fértil para todas as artes e ciências, o Renascimento viu surgir a técnica da perspectiva na pintura, utilizada pelo italiano Giotto, para valorizar a profundidade no campo de visão. Os palcos dos teatros de estilo italiano (como os Municipais de São Paulo e Rio de Janeiro, ou ainda o teatro José de Alencar de Fortaleza, por exemplo) foram idealizados para adotar essa técnica. Ao mesmo tempo, após suas premissas como ballo na Itália, o balé se desenvolveu na França como uma arte intimamente ligada ao poder do Rei Sol, Luís 14.

Balé Bolshoi
Imagem cedida pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil
Crédito: Nilson Bastian
Cena do espetáculo "Don Quixote",
da Companhia Jovem da Escola
do Teatro Bolshoi no Brasil

Toda essa intriga política que marca o início da dança como uma arte da Corte, ou seja, do poder, é retraçada no filme “O Rei Dança” (2000), do francês Gerard Corbiau. Mas por que o rei decide transformar o balé numa arte com uma técnica codificada, descrita em manuais? Primeiramente, porque Luis 14 era, diz a história, um excelente bailarino. Encomendar balés ao compositor João Batista Lully, e inclusive ao grande dramaturgo Molière, era uma maneira de subir ao palco e, já naquela época, fazer um certo marketing. Mas independente das vaidades do rei, o balé ganhou ainda mais ares de nobreza com seus manuais, professores e mestres (maîtres de ballet). Porque para difundir a nova maneira de se dançar em Paris, a maneira mais segura e prática era transcrever os passos para o papel, formar professores e mandá-los pelo país afora. Nascia, assim, uma Academia Real de Dança em março de 1661, oito anos antes da Academia de Música. Nada mais lógico do que codificar a arte da dança, segundo regras precisas, numa época que viu se desenvolver o pensamento de filósofos como René Descartes (1596-1650) e estudos de anatomia.

É na Academia Real de Dança que são estabelecidos os primeiros passos, posições e figuras do balé clássico, utilizados até hoje. Vale notar que, no mundo inteiro, essas instruções de base do balé são transmitidas em francês, como a première (primeira), seconde (segunda), troisième (terceira) posição para os pés e para os braços. A primeira posição, por exemplo, consiste em abrir os pés em 180° com os tornozelos se tocando. A partir desse simples exercício, é possível se perceber que o balé exige e forma um corpo particular, com uma abertura e flexibilidade que são adquiridas com muitas horas de treinamento. Essas formas foram desenvolvidas exatamente de acordo com os princípios de graça e beleza da época, da leveza que se buscava nos movimentos. De fato, o balé clássico é uma dança aérea, que vai sempre lutar contra a força da gravidade.

Armado de uma técnica e de um rei poderoso que é o seu primeiro defensor, o balé está pronto para conquistar a Europa. É claro que todos querem fazer igual, ou melhorar o que os franceses ditam como moda, e como chic. Assim, mâitres de ballet vão se estabelecer em Moscou, São Petersburgo, Copenhagen e Londres, reinventando, cada um, um estilo próprio, mantendo as regras de base e o aspecto narrativo que sempre acompanhou o balé clássico, que normalmente “conta uma história”, e para isso se apóia também nas técnicas da pantomima. O que reforça ainda hoje o aspecto vaporoso do balé e a sua imagem de “sonho” e feérico , são os “clássicos” que atravessaram os séculos, sobretudo dos anos 1800, época do “balé branco” como “Gisele”, “Copélia”, “Lago dos Cisnes” ou “A Bela Adormecida”, nos quais melodramas no limite do “água-com-açúcar” contam grandes histórias de amor, de traição e de vingança, embaladas por grandes compositores como Tchaikovsky.

Nessa época, apesar de produzir estas peças de importância histórica incontestável, o balé já perdia terreno para a ópera, que começava a atrair o pleno vigor criativo dos compositores de música. Em muitos teatros, a dança passou a ser um “divertimento”, um breve momento de entretenimento antes da ópera, ou uma curta parte integrante desta última. As bailarinas, na ópera de Paris, são mantidas por “padrinhos ricos”. A expressão ficou, inclusive, na língua francesa: se alguém está explorando ou usando outra pessoa como uma prostituta, diz-se que ele está fazendo o outro de danseuse (bailraina).

Mas o balé já estava bastante implantado em todo território europeu, com história e bagagem para nos marcar até hoje com a técnica clássica e seus “standards”, tutus e pontas. Fora dos palcos, um mundo bastante diferente do “cor-de-rosa” das coreografias. Uma Europa em plena transição do mundo rural para o industrial e tensões que preparavam a guerra de 1914. Um novo século, uma nova sociedade. Um novo corpo.