Na real, as tropas romanas não tiveram muito trabalho para conquistar a Gália. Exceto pelo período em que Júlio César foi obrigado a enfrentar a rebelião gaulesa chefiada por Vercingétorix, não houve maiores problemas. Mas, não há melhor vingança do que séculos depois tornar um sucesso mundial essa história recontada sob o ponto de vista dos gauleses.
![]() Reprodução Mapa que mostra a localização da aldeia gaulesa na abertura de todas as histórias em quadrinhos de Asterix |
Claro que desta vez eles não só resistem como ridicularizam o domínio romano. Para deixar isso evidente, todas as historinhas de Asterix começam mostrando a desproporção de forças entre os irredutíveis gauleses e as legiões romanas. Numa Europa ocupada por milhões de súditos de César, resta uma ínfima aldeia a ser conquistada. Não por acaso, ela foi geograficamente localizada pelos criadores de Asterix, Alberto Uderzo e René Goscinny, na Britânia, uma região historicamente rebelde, de tradições separatistas e cheia de lendas sobre magias e heróis aventureiros, como a do Rei Arthur.
É nessa aldeia que vive Asterix, um baixinho e astuto guerreiro gaulês, que tem como companheiro inseparável Obelix, um carregador de menires de força sobre-humana que adora uma boa briga e javalis assados. O segredo da resistência gaulesa vem de uma poção mágica criada pelo druida Panoramix que faz com que Asterix e seus companheiros fiquem muito mais fortes do que seus adversários. As vítimas mais rotineiras deles são os legionários das quatro guarnições romanas que ocupam os campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum, no entorno da aldeia.
O humor refinado das historinhas vai das brincadeiras com a linguagem até citações que misturam fatos e personagens históricos com situações e comportamentos contemporâneos. Em “Asterix e Cleópatra”, as falas dos egípcios são retratadas nos balõezinhos em hieróglifos, às vezes “dublados para comodidade dos leitores”. Em “Obelix e Companhia”, o plano romano para conquistar os gauleses é ocupá-los o tempo todo para que eles fiquem sem tempo para lutar. O plano foi traçado por Caius Saugrenus, um personagem romano igual ao então prefeito de Paris Jacques Chirac, quando a historinha foi escrita. Ele prevê que os gauleses forneçam incessantemente menires para o Império Romano. Mas, a idéia vai por água abaixo quando há uma saturação de menires e seu preço despenca, obedecendo às leis de oferta e procura do mercado.
![]() Divulgação Cena do filme "Asterix nos Jogos Olímpicos": os longas-metragens apesar de baseados nos quadrinhos têm focado o público infantil |
As narrativas sempre trazem também uma crítica bem-humorada aos comportamentos, principalmente aos modismos. Nos quadrinhos “O Combate dos Chefes”, o chefe gaulês Tomix aderiu completamente aos romanos e exige que todos os aldeões usem toga e cabelo curto. Para ter mais pinta ainda de romano, ele pensa em construir um aqueduto. Mesmo que para justificar ter esse símbolo arquitetônico romano tenha de desviar o rio que já atravessa a aldeia. Em “O Domínio dos Deuses”, Júlio César refere-se a si mesmo sempre na terceira pessoa, o que causa uma divertida confusão em suas comunicações com os súditos.
Com esses elementos, os quadrinhos de Asterix são um sucesso internacional desde os anos 60. Ao atingir uma popularidade comparável a de personagens da Disney ou aos super-heróis norte-americanos, Asterix ajudou a fortalecer a identidade cultural dos franceses. Mas, mais do que isso, as historinhas mesmo situadas no mundo antigo, décadas antes de Cristo, mostram heróis, personagens e situações que ironizam valores e atitudes do mundo contemporâneo de uma forma otimista e divertida.