Os governos sempre nos escondem algo. Muitas vezes até mentem para fazer isso. Provas não faltam. As falsas justificativas dadas pelo governo norte-americano para a invasão do Iraque ou o acobertamento pelo governo chinês dos mortos e feridos no massacre da Paz Celestial são exemplos. Assim, nada nos garante que todos os fatos sobre o assassinato de John F. Kennedy ou sobre o que realmente a Força Aérea dos EUA encontrou em Roswell tenham sido revelados. Basicamente, esse é o raciocínio que permeia as tramas de “Arquivo X” desde os anos 90. Além de espectadores ávidos por teorias da conspiração cada vez mais sofisticadas, a série encontrou também um público bastante cético e desconfiado em relação a seus governos, principalmente em relação ao governo do país mais poderoso do planeta.
![]() Divulgação Scully e Mulder, nada de importante aconteceu hoje? |
Para alimentar a imaginação desse público, o agente Fox Mulder assumiu os arquivos X logo no primeiro episódio da série. Sua missão era cuidar de casos estranhos que nenhum outro agente parecia querer, principalmente porque a chance deles continuarem sem solução era grande. Mulder ocupa uma sala nos porões do quartel-general do FBI em Washington, sintomático do desprezo e do esquecimento que o governo tem e quer ter em relação aos arquivos X. Além disso, ganha como companheira para suas investigações a agente Dana Scully, uma cientista médica, cética e que nos planos dos chefões do FBI ajudaria a desacreditar qualquer descoberta fora do normal feita por Mulder, assim como controlar seus métodos nada ortodoxos de investigação.
![]() Divulgação A dupla de agentes do FBI em investigação de um caso em cena do segundo filme para o cinema, "Arquivo X: Eu Quero Acreditar" |
A obsessão de Mulder pelos arquivos X vem de uma tragédia do passado. Quando era criança, sua irmã mais nova desapareceu e ele está convencido de que Samantha, que na época tinha oito anos, foi raptada, abduzida por extraterrestres. Desde então, tornou-se um obstinado em encontrá-la ou provar sua teoria. Trabalhar para o FBI, e especialmente ter sob sua responsabilidade investigar os arquivos X, era o que ele precisava para ir adiante nessa busca por respostas.
Mas não é apenas uma questão familiar que sustenta a procura de Mulder pela verdade. Ela é incentivada também por uma atmosfera de paranóia que progressivamente tomou conta dos Estados Unidos e de outros países a partir da segunda metade do século 20. Paranóia motivada por segredos e espionagens da Guerra Fria, pelos assassinatos de líderes que estariam enfrentando interesses poderosos, como o pastor negro Martin Luther King Jr, pelo jogo sujo do alto escalão político, revelado no caso Watergate, pelos experimentos radioativos em seres humanos e pela promíscua relação entre governos e empresas ligadas ao complexo militar-industrial mundo afora. A percepção de uma parte da população passou a ser de que talvez os governantes não estivessem realmente defendendo os interesses públicos. Nesse clima de desconfiança e desilusão, prosperaram teorias sobre conspirações envolvendo alto-escalões governamentais, poderosos grupos privados e, como no caso de “Arquivo X”, até mesmo alienígenas.
![]() Reprodução "Arquivo X" virou um fenômeno pop e Gillian Anderson, a musa dos "excers" |
Das ameaças alienígenas a fenômenos paranormais, “Arquivo X” coloca como questão central uma disputa sobre qual seria a melhor forma de se lidar com a verdade, uma entidade quase mitológica no mundo atual. De um lado, está uma nova espécie de herói contemporâneo representado por Fox Mulder, um funcionário público que crê mais em ETs do que em seus chefes. Sua missão é fazer com que as pessoas conheçam o que realmente está acontecendo. Do outro lado, estão instituições governamentais, quase sempre envolvidas em alguma conspiração articulada com “ex-inimigos” (nazistas, russos, mafiosos), grandes corporações e seres alienígenas. Elas acreditam estar protegendo os cidadãos ao evitarem que eles realmente conheçam a verdade. Por essas e outras, o mote principal da série resume bem o espírito que alimenta o sucesso de “Arquivo X”. A verdade está lá fora. Em algum lugar.
![]() Divulgação Mulder quer acreditar, enquanto Scully ainda se mantém ligeiramente cética |
Fox Mulder (David Duchovny) – crente em conspirações governamentais, vida extraterrestre e fenômenos psíquicos, Fox Mulder entrou para o FBI obcecado pelos arquivos X. Neles ele talvez encontre pistas sobre o que realmente aconteceu com sua irmã, que ele acredita ter sido abduzida por extraterrestres. Sua fé de que há muita coisa sendo escondida de nós, nos casos considerados “inexplicáveis”, o leva a criar hipóteses que nunca são bem vistas por seus chefes. Dana Scully (Gillian Anderson) – começa a série como uma agente novata que é colocada para ser a parceira de Mulder. Cética e expert em ciências médicas, ela teria o perfil ideal, na visão dos chefes, para desacreditar as teorias mirabolantes de Mulder. O tiro sai pela culatra e ela acaba caindo de amores pelos arquivos X (e, apesar de negar, por Mulder também). Walter Skinner (Mitch Pileggi) – veterano da Guerra do Vietnã, o chefe de Mulder e Scully é diretor-assistente do FBI, o segundo homem mais importante do órgão. Freqüentemente irritado com as intuições de Mulder, vive pressionado pelos conspiradores e com o passar dos episódios torna-se um aliado de Mulder e Scully. Pistoleiros Solitários (Tom Braidwood, Bruce Harwood e Dean Haglund) – são a fonte de informação alternativa de Mulder. Eram quatro, mas um deles foi morto após acessar o computador do Departamento de Defesa dos EUA e obter dados sobre o envolvimento do governo na conspiração com os aliens. Os três restantes (Byers, Langly e Frohike) mantêm uma publicação voltada a denunciar conspirações. Canceroso (William B. Davis) – a figura mais sombria da série, é um homem poderoso (apesar de não ser o mais poderoso integrante do “Sindicato”). Com livre trânsito no FBI e no Pentágono, rouba provas obtidas por Mulder e comanda todas as ações para desacreditar e intimidar os trabalhos dos agentes dos arquivos X. |