Música para ouvir... música para sentir

Autor: 
Renata Mancini

Arnaldo Antunes é um artista a serviço da palavra. Sua vasta produção poética ou mesmo o trabalho como músico ou como artista multimídia reverenciam a palavra como fonte inesgotável de novas experiências. Para isso, a transforma em matéria lúdica, ao brincar com conteúdos a partir da manipulação da sua musicalidade, da celebração da visualidade da escrita, das muitas texturas, cores, tamanhos e ritmos que fazem parte do contato tanto inteligível quanto sensível com o mundo lingüístico. Para isso, despreza a rígida distinção entre as linguagens, toma para si o verbal, o visual, o gestual e o musical com um mesmo valor de matéria plástica pronta para ser moldada em nome da experiência estética.

Sua inquieta postura artística busca incessantemente uma nova maneira de “fazer sentir” a obra de arte, de modo a “empurrar” as fronteiras de seu trabalho em busca de novos limites da significação. O próprio artista revela essa inquietude produtiva ao comentar a escolha pela associação entre linguagens na criação do projeto "Nome", que inaugura sua carreira solo com uma proposta que marca sua posição de maneira inequívoca: “Eu queria juntar a leitura na tela, sair do papel, obter movimento na leitura. Isso concomitantemente à ocorrência do som, o que dá muitas camadas de simultaneidade”.

Essas “camadas de simultaneidade” são, então, construídas por meio da exploração do diálogo entre linguagens e ao explorar as dimensões sonora, tátil e visual da palavra o autor parece querer mostrá-la como experiência, não como elemento de mediação entre o sujeito e o mundo. Consoante com as correntes artísticas contemporâneas, sua obra nega a palavra como elemento que representa o mundo para alçá-la a elemento constitutivo deste, a “coisa do mundo”: “Eu entendo a arte não como coisa para falar da vida, mas para viver. É uma parte da vida...”.

No projeto Nome, Arnaldo deixa clara sua proposta, quase que de maneira didática. Com essas “brincadeiras” entre linguagens vai forjando novos significados para os elementos cujos sentidos pareceriam totalmente cristalizados e não passíveis de mudança. Por exemplo, na faixa “Carnaval”, trabalha com a musicalidade da fala e da melodia para forçar uma identidade, inexistente, entre os conteúdos postos em jogo.

árvore
pode ser chamada de
pássaro
pode ser chamado de
máquina
pode ser chamada de
carnaval
carnaval
carnaval

Em princípio, não há qualquer relação de identidade que se possa estabelecer entre os conteúdos de árvore, pássaro, máquina e carnaval. Entretanto, se levarmos em conta a maneira como pronunciamos as palavras, veremos que os três primeiros elementos têm em comum o fato de serem palavras proparoxítonas (em que o som forte recai na primeira sílaba). Na maneira como é cantada por Arnaldo, o acento da palavra carnaval é deslocado da última para a primeira sílaba, transformando-a forçosamente também em uma proparoxítona (ao invés da sílaba forte cair em “val” de carnaval, como de costume, passa a cair em “car”). Além do mais, a identidade sonora construída pelo modo de pronunciar carnaval na canção é reforçada por uma melodia formada por células, melódicas e rítmicas, idênticas e recorrentes e que convergem, no final, para um tipo de batucada estilizada. Ou seja, ele forja uma identidade sonora para termos completamente díspares, a ponto de dizer que qualquer deles “pode ser chamado de” qualquer um dos outros. O efeito poético baseado na “estranheza” criada por essas equivalências forçadas sonoramente é inegável.

O didatismo do projeto "Nome", no que diz respeito a sua proposta original, perde lugar e se dissipa ao longo da obra de Arnaldo Antunes, mas, de qualquer maneira, a mesma idéia se mantém intacta, mesmo que menos explícita. Não por acaso, seus shows possuem uma carga performática grande e um tratamento visual cuidadoso, assim como suas canções partem, tantas vezes, de poemas cuja composição gráfica também influi na leitura final. Nesses casos, o ouvinte de uma canção, por exemplo, que tenha acesso à letra enquanto poema gráfico, certamente perceberá uma nova camada de significação para a obra.

Mesmo em seus outros álbuns os jogos lúdicos com a palavra estão presentes. Por exemplo, na faixa “De baixo d’água”, do CD "Paradeiro":

Debaixo d'água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia

A letra, da maneira como é cantada, mimetiza a falta de ar da qual fala, já que a melodia é construída de forma a não dar espaço para pausas, a não ser a pausa que antecede “mas tinha que respirar”.

Ainda no mesmo CD, a faixa “Do vento” cria uma certa “idéia do vento” com imagens como “alimenta o fogo, atormenta o mar, arrepia o corpo, joga o ar no ar” ou então “sacode a cortina, alça os urubus, sai pela narina, canta nos bambus”, imagens estas reforçadas sonoramente com a repetição de sons e com a construção de um efeito de continuidade, como no fluxo do vento, criado por uma quase-identidade sonora (vem do/ vem tu/ vento) nos versos:

tudo vem do vem tudo vem
do vento vem tudo vem
do vento vem tudo

Sua indissociável ligação com a palavra fica igualmente clara nas canções compostas a partir de poemas consagrados, como é o caso de “Hotel Fraternité” (CD "Qualquer"), baseado num poema de Hans Magnus Enzensberger, ou mesmo “Budismo moderno” (CD "Ninguém"), baseado em poema de Augusto dos Anjos. O mesmo vale para quando explora o jogo dos gêneros, como em “Macha fêmea” (CD "O Silêncio") em que brinca com palavras como “macha”, “fêmeo”, “cérebra” “pescoça”, “nádego”, “cabeço”, “liberal gerou”.

Não se pode deixar de mencionar, porém, que a obra de Arnaldo também possui uma grande carga de lirismo, como é o caso de canções como “Seu olhar” (CD "Ninguém"), ou “Pedido de casamento” (CD "Saiba"), “Contato imediato” (CD "Qualquer") entre tantas outras. De fato, após a experiência tribalista, em que foi convidado a cantar de uma maneira mais branda, em regiões da voz pouco exploradas até então, parece que houve uma guinada na sua produção para uma abordagem mais intimista e suave, mas que, no entanto, não abre mão do jogo dos sentidos. Na faixa “Bagdá” (CD "Qualquer"), por exemplo, a suavidade na maneira de cantar, assim como no arranjo, garante uma leitura inusitadamente doce à cena de um bombardeio à cidade de Bagdá. Sem mencionar que ele continua, mesmo na nova fase, explorando como poucos as texturas sonoras em seus arranjos. Um verdadeiro artista domador de palavras.