O percurso de um artista múltiplo

Autor: 
Renata Mancini

Arnaldo Antunes bebeu nas águas das correntes de vanguarda da cena paulistana, como a poesia concreta de Haroldo e Augusto de Campos, ou mesmo o movimento tropicalista que teve sua gestação na grande “geléia geral” que São Paulo sempre representou. Com sua efervescência e abertura para influências de todas as partes, nacionais e internacionais, a cidade teve, como ele mesmo admite, grande peso em sua obra.

Arnaldo nasceu em São Paulo, em 2 de setembro de 1960, e exceto pelo período de um ano, em 1979, em que morou no Rio de Janeiro, sempre teve o percurso organizado a partir da metrópole paulistana. No artigo “Alma Paulista” não deixa dúvida sobre sua relação com a cidade: “...creio só terem sido possíveis tais formulações pessoais [“Riquezas são diferenças”, “Não sou brasileiro, não sou estrangeiro” etc.] pelo fato de eu haver nascido, crescido e vivido sempre em São Paulo. Por essa ser uma cidade que permite, ou mesmo propicia, esse desapego para com raízes geográficas, raciais, culturais. Por eu ver e viver São Paulo como um gigante liquidificador onde as informações diversas se misturam, se atritam gerando novas fagulhas, interpretações, exceções”.

O início nos Titãs, grupo paulistano formado em 1981 que balançou a cena pop-rock, principalmente nos anos 80 e 90, garantiu sua projeção na mídia e o consagrou como um grande compositor pop. A passagem pelos Titãs certamente contribuiu para conciliar a tônica experimental de sua produção solo e o universo pop, sempre buscando o diálogo com seu público massivo e heterogêneo.

O próprio Arnaldo admite que a liberdade de seu trabalho, e a conseqüente participação fluente em universos artísticos dos mais distintos, é possível por ele pertencer a uma geração em que as distinções entre arte de elite, como sinônimo de qualidade, e arte popular, vista como empobrecimento, sejam cada vez mais escassas e difusas. Nesse sentido, certamente a passagem pelo Colégio Equipe, conhecido por dar destaque ao papel da arte no processo de aprendizado, foi de extrema importância para a sua formação. Foi ali também que se estabeleceram muitas das parcerias importantes  especialmente com Paulo Miklos, que no início dividia com ele muito de sua produção, e onde se formou o embrião do que viria a ser os Titãs.

Desse modo, Arnaldo Antunes vai se construindo como um artista múltiplo, com presença garantida nas mais variadas e, em princípio, díspares  manifestações culturais. Seu trabalho engloba, por exemplo, o experimentalismo radical do CD, livro e DVD "Nome", que figurou, juntamente com grande parte de sua produção de instalações, poemas gráficos, caligrafias, ações performáticas etc., em mostras nacionais e internacionais de arte contemporânea, dentre as quais a XXIV Bienal Internacional de São Paulo. Passa pela participação no programa infantil Castelo Rá Tim Bum, da TV Cultura, que abriu os caminhos para futuras incursões no universo infantil, com contribuições ao selo “Palavra Cantada”. Até mesmo inclui a composição, em parceria com Liminha, da música-tema de abertura dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Esse percurso singular culmina na indicação ao Grammy Latino da faixa “Pra lá”, de seu recente CD "Qualquer" (2006), feita em parceria com Adriana Calcanhoto, como Melhor Canção Brasileira. Suas criações chegaram até mesmo a serem vestidas! Dentre a sua plural presença na vida artística brasileira, vale a menção de que seus poemas figuraram como cenário do desfile da marca Ellus, na edição de 2001 da São Paulo Fashion Week, sendo que os mesmos transformaram-se em estampas de algumas das peças daquela coleção.

Isso tudo sem mencionar o rico percurso de uma produção poética que se sedimentou na publicação de vários livros e de uma discografia extensa, grandemente elogiada, e tantas vezes premiada, que inclui o projeto de sucesso Tribalistas, nascido de sua parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown. O CD Tribalistas foi um sucesso de vendas no Brasil e em países como Portugal e Itália e levou o Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo Brasileiro, em 2003.

Em suma, Arnaldo Antunes constrói em seu percurso a heterogeneidade e riqueza de situações, de diálogos, de sensações a que submete o público com uma obra original, livre de coerções e preconceitos.