Anjos e Demônios, o filme

Os livros “Anjos e Demônios” e “O Código Da Vinci”, escritos por Dan Brown, são best-sellers, mas não conseguiram chamar tanta atenção da mídia e causar tanta revolta da Igreja Católica como as versões cinematográficas das histórias, com direção de Ron Howard. “Anjos e Demônios” é, na verdade, a primeira história do simbologista Robert Langdon. Porém, Howard e os roteiristas Daniel Koepp e Akiva Goldsman preferiram usar como sequência de “O Código Da Vinci”. Tanto que Langdon é diversas vezes lembrado dos problemas que teve com o Vaticano em suas investigações em Paris.

Anjos e demônios
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Na trama de “Anjos e Demônio”, o pano de fundo do thriller é o embate entre ciência e religião. O filme começa com a morte do papa, e a formação do conclave, momento em que os cardeais se reúnem para decidir quem será o próximo pontífice. Os quatro cardeais mais cotados para a sucessão são sequestrados e ameaçados de morte, ao mesmo tempo em que uma perigosa bomba de antimatéria, recém-criada no laboratório CERN e capaz de destruir a Cidade do Vaticano, é roubada.

Acredita-se que os culpados sejam os Illuminati, uma seita com origens no Iluminismo, que pretende se vingar dos ataques que sofreram da Igreja Católica há dois séculos. Eles estariam se vingando do episódio descrito por Dan Brown como “La Purga”, quando a Igreja Católica teria prendido quatro cientistas e gravado a fogo o símbolo da cruz em seus peitos. Assim eles teriam sido purgados de seus pecados e em seguida foram executados publicamente.

Os sequestradores prometem matar um refém por hora e explodir o Vaticano à meia-noite. Para evitar a explosão da bomba e para encontrar os cardeais antes de uma tragédia, o Vaticano chama o simbologista e professor da Harvard, Robert Langdon (Tom Hanks). Ele deve decifrar um ambigrama (palavra que pode ser lida normalmente ou de cabeça para baixo) e conta com a ajuda da cientista Vittoria Vetra, interpretada pela israelense Ayelet Zurer. Só ela poderá desarmar o mecanismo que explodirá a antimatéria e evitar que o Vaticano se dissolva em luz, como ameaçaram há séculos os Illuminatti. Há a suspeita de que exista alguém infiltrado. A investigação é comandada pelo chefe da Guarda Suíça, Richter (interpretado por Stellan Skarsgård) e conta com o apoio do cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl), que preside o conclave que irá escolher o novo papa.

Para Howard, este filme é muito diferente do seu antecessor. Em “Anjos e Demônios” há modernidade e antiguidade, tecnologia e fé. “Estes temas e ideias são muito mais ativos, o primeiro filme vivia muito do passado”, afirmou o diretor em uma coletiva de imprensa em Nova York.

Mesmo com toda ação, “Anjos e Demônios” deixa à mostra que é uma ficção e que realidade está mais para um termo subjetivo do que para fato. Assim como a obra literária, o filme mescla suspense com informações nem sempre factíveis sobre ciência, religião e história da arte. Isso atrai o público, mas incomoda tanto cientistas como religiosos.

O próprio Antonio Zichichi, homem que descobriu a antimatéria em 1965, revela que sua descoberta não pode ser roubada e muito menos contida num recipiente, como ocorre em “Anjos e Demônios”. O diretor, no entanto, defende que seu filme não é um documentário e sim ficção, e que possui um conselheiro científico para mostrar de forma plausível suas ideias.

Por parte da Igreja Católica, “Anjos e Demônios” enfrentou menos polêmica e protestos que “O Código Da Vinci”, mas também não foi poupado. Desde a proibição de filmar na Praça São Pedro, que teve de ser reconstruída em estúdio, até o silêncio para não dar tanta publicidade como deu para o primeiro filme, a Igreja Católica deixou claro seu desagrado com as ideias tanto de Dan Brown como de Ron Howard. O diretor garante que o Vaticano pressionou outros organismos para evitar filmagens em Roma. Porém, de forma geral, o segundo filme não critica tanto a Igreja Católica.

O Vaticano pôs fim ao silêncio institucional oficial em relação ao filme com dois editoriais publicados no jornal "L'Osservatore Romano". Eles não criticam nem elogiam o filme, mas oferecem um misto de comentários positivos e negativos. Com termos como "efêmero”, "pretensioso", mas que "prende a atenção", com o trabalho de câmera "esplêndido" e a direção de Ron Howard "dinâmica e atraente", os editoriais não quiseram entrar muito em questões polêmicas.

"Seria provavelmente um exagero considerar os livros de Dan Brown um sinal de alarme, mas talvez eles devam ser um estímulo para que se repense e renove a maneira como a Igreja emprega a mídia, para explicar suas posições sobre as questões mais candentes do momento", diz o editorial.

Para o público, o filme é um momento de lazer. E a depender de suas convicções pode tanto parecer um desserviço por misturar ficção com realidade, como apresentar uma Igreja Católica com problemas, sim, mas também como uma entidade com respeito à história, monumentos e cultura do Vaticano.